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Bolas de Berlim... sem creme

Um blogue que não é de culinária (apesar de ter algumas receitas)

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Olhos sem pena

Há dois tipos de reacções perante a observação de uma pessoa com deficiência: a reacção de surpresa e consequente encantamento (no sentido de não conseguirem resistir à tentação de olhar e fixar o olhar) e a reacção de normalidade (viram, assimilaram, está visto, sem aparentes juízos de valor). Infelizmente, a segunda reacção é muito menos frequente. 

Estas reacções provêem também, na generalidade, de dois tipos de pessoas diferentes: a primeira é a reacção das pessoas mais velhas, a segunda das mais novas. Os velhos não resistem a olhar, os novos não estão nem aí. Os velhos, se for preciso, até se viram nas cadeiras e seguem a pessoa com o olhar até esta desaparecer de vista. Os novos olham, se calha, mas a vida continua no momento logo a seguir.

O que não deixa de ser curioso. Uma pessoa pensa que pelos olhos dos velhos já terá passado tudo, uma vida inteira, cheia de descendência de primos casados e maleitas físicas que a medicina não conseguiu curar. Mas não, são exactamente esses que mais se espantam quando vêem um pé deformado. Dá vontade de perguntar: "Nunca viu?"

Mas, afinal de contas, é normal olhar. É normal que as pessoas se espantem com o que nunca viram, com o que julgavam ser direito e afinal é torto, é normal que olhem, uma, duas, três vezes, para depois se habituarem. Um dia, vão deixar de olhar. Até lá, vejo que me olham, assimilo e aprendo a gerir isso dentro de mim. Nos dias de mau humor sou capaz de olhar de volta com um olhar desafiador, mas no geral nada faço, nada digo. Não é preciso, porque a vida continua no momento logo a seguir e é a repetição destes momentos que fará com que, daqui a uns tempos, as pessoas com quem me cruzo todos os dias se habituem a ver sem olhar.

 

Quer olhem, quer não, o importante é educar os outros a não terem pena. Porque há pessoas com deficiência capazes de coisas que pessoas sem deficiência nem sequer sonham alcançar.