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Bolas de Berlim... sem creme

Um blogue que não é de culinária (apesar de ter algumas receitas)

Bolas de Berlim... sem creme

Um blogue que não é de culinária (apesar de ter algumas receitas)

Livros para Alqueidão da Serra

Por causa deste post chegou-me o seguinte pedido que, com a devida autorização, divulgo com muito prazer.

 

"Olá! Encontrei o seu blog precisamente à procura de doação de livros para bibliotecas! Faço parte do executivo da junta de freguesia de uma aldeia, Alqueidão da Serra, e encontramo-nos na fase de implementação de uma biblioteca local. Devido à falta de recursos, recorremos apenas ao voluntariado e doações. Caso pretenda colaborar com alguns livros, ficaremos gratos.

Dado tratar-se de uma pequena biblioteca de aldeia, os livros que mais procuramos são precisamente romances e livros infantis. Também alguns materiais de referência (enciclopédias, dicionários, etc.) que, provavelmente, depois teremos de adquirir.
(...) faço parte de um grupo de malta jovem (!), entre os 25 e os 45, que nos candidatámos como grupo independente nas últimas eleições autárquicas e vencemos. O nosso objetivo não foi/é fazer grandes obras mas dinamizar culturalmente um pouco a freguesia. A criação da biblioteca faz parte desses objetivos. Como não temos grandes recursos, tudo é feito à base de voluntariado e doações. Temos tido os jovens da Ocupação de Tempos Livres a ajudar-nos a catalogar os livros. O espaço da biblioteca é muito bonito, num edifício recente e com muita luz. Depois envio-lhe fotos. 

Não pretendemos que tenha despesas com o envio. Caso seja muita quantidade, poderemos combinar uma forma de levantar ou pagar no destino. No entanto, o endereço para envio é:
Junta de Freguesia de Alqueidão da Serra
Rua Dr. Pedro Matos, nº 1

2480- 013 Alqueidão da Serra

Poderá consultar o nosso site em:
 
 
Para o esclarecimento de dúvidas, podem contactar directamente a pessoa em questão: 

Silvia Carvalho: silviac96@gmail.com

 

(É por causa destas coisas que fico feliz por ter um blog.)

 

Pós-Natal

O mal, ou bem, de ser de Germanística é que Natal sim, Natal não nos oferecerem livros de autores alemães, clássicos ou Nobel, os quais raramente quero ler mas que fazem um vistaço na prateleira. Eu, que não gosto de ter coisas só por ter e esta altura do Natal me dá para fazer arrumações (sai velho, entra novo), prometo sempre a mim própria que este ano vou ler todos aqueles clássicos que vou coleccionando por força das circunstâncias. Foi assim que ontem peguei no Günter Grass de 451 páginas e, logo na segunda página, dei com a minha filosofia de vida, tão adequada a esta época consumista natalícia:

 

"Dar prendas está a tornar-se cada vez mais difícil. Onde há ainda lugar vago? Oh, esta dor de já não sabermos o que desejar! Foi tudo satisfeito. O que nos falta, dizemos, é a necessidade, como se quiséssemos fazer dela um desejo. E continuamos a dar presentes inexoravelmente." (in A Ratazana, Günter Grass)

 

E assim se passou mais um Natal.

Ulisses

"A necessidade é aquilo em virtude do qual

é impossível que uma coisa possa ser de outro modo."

(in Ulisses, James Joyce)

 

Às vezes, quando penso que estudei Literatura, nem acredito. Quando penso que aos 18 anos lia Saramago, Pessoa, Bocage e Baudelaire, não me reconheço. Quando penso que estudei a fundo autores alemães como Novalis, Hofmmanstahl e Kafka, que andava sempre com um livro na mala e que lia 3 a 4 livros por mês, tenho de fazer um esforço honesto para pensar em como cheguei à situação a que cheguei: a de uma pessoa a quem a maternidade e a vida adulta sufocaram a capacidade (e vontade) de manter uma rotina de leitura digna de uma antiga estudante de Literatura. Ultimamente só leio livros técnicos, ensaios e biografias que raramente termino ou romances leves e fáceis que me permitam ler mais de 3 páginas à noite sem adormecer. Acontece, assim, que estou a ler vários livros ao mesmo tempo, sem verdadeiramente estar a ler nenhum. São eles um romance leve em alemão (mas como é em alemão já perdeu toda a leveza que podia ter) sobre um grupo de amigas, totalmente diferentes entre si, que decide fazer o caminho de Santiago, um livro sobre destralhar, em inglês, um livro sobre parentalidade consciente, em português, e outro livro em alemão sobre uma jornalista que se decidiu preparar para o colapso do sistema financeiro e passou um ano sem compras. Se virmos bem, nada disto é estranho em mim, pois são temas pelos quais me interesso bastante e sobre os quais costumo falar aqui.

Mas... e os clássicos, pá? E a Literatura, com L grande? Sou ou não sou uma ex-aluna de Teoria da Literatura? Estudei ou não estudei a fundo Kafka, Novalis, Thomas Mann? Li ou não li o Beowulf?

 

(fim da arrogância e pausa para suspirar)

 

Há um tio na família, pessoa muito culta e letrada, que no Natal nos costuma oferecer os grandes clássicos da Literatura mundial. Desde Dante a John dos Passos, Pamuk ou Cervantes, acho que ainda só falhou nos russos (a ver se num destes almoços lhe digo que ainda nunca li Tolstoi).

É claro que ainda não lemos nenhum. Vamo-los acumulando na estante da sala, estrategicamente dispostos para visita ver. Ao menos isso.

Mas há um que chama por mim: o Ulisses, do James Joyce, na nova tradução. 900 páginas que descrevem os acontecimentos de um só dia, numa paródia à Odisseia de Homero. Aberto a várias interpretações, não é um livro fácil. Mas em 2007, não sei por alma de quem, meti na cabeça que teria de ler o Ulisses de uma ponta à outra durante um ano. Assim, entre Janeiro e Junho, li 9 capítulos (são 12), e teria conseguido terminar a odisseia, não fosse ter regressado a Portugal em Julho e, portanto, ter perdido o foco. Mas, na memória das várias anotações que fiz sobre o livro, fui pesquisar num dos meus antigos blogues, onde as escrevia, e logo me acometeu uma grande vontade de retomar essa leitura.

 

Estava eu nestes pensamentos quando entrou um gato pela portinhola dos gatos (que já são dois). Era o "gato pequeno" como lhe chamávamos - até ao dia em que lhe inventei um nome. O "gato pequeno" que nos rondava a casa em busca de comida e afecto e dormia cá dentro sem nós sabermos. O "gato pequeno" que nos escolheu a nós como família, e que à noite se aninha ao Dexter e ao Balzac em cima do banco da sala, de preferência sobre os lençóis acabados de secar que eu, displicentemente, não arrumei logo. E foi por isso, devido ao cruzamento destes pensamentos, no preciso momento em que decidi voltar a pegar em James Joyce, que escolhi o novo nome para o nosso novo gato.

 

Sejas muito bem-vindo, Ulisses.

 

IMG_9980.JPG

(e chegámos ao ponto em que já tenho mais gatos que filhos)

Martin Suter

suter.jpg

 

Trouxe de Berlim sete livros em alemão, por autores alemães ou suíços. Comecei por este, por nenhuma razão em especial, apenas porque a sinopse me interessou por ser assim um género de policial por conta própria: um jornalista acorda com amnésia depois de ter sido encontrado ferido e começa a investigar o que aconteceu durante os 50 dias que se lhe varreram da memória. Como não podia deixar de ser, faz descobertas surpreendentes...

Levei um mês a acabar as pouco mais de 300 páginas, não porque não o tivesse achado interessante, mas porque, desde que sou mãe, a minha velocidade de leitura sofreu um abalo considerável e não é raro adormecer ao fim de 3 páginas e levar com o livro na tola (só tenho tempo para ler na cama)... Portanto, tendo isso em conta, até o li com relativa rapidez. *suspiro*

E gostei. Foi um bom livro para retomar as leituras em alemão e me motivar para ler os restantes 6 que trouxe, e é um bom livro para levar para as férias. Tem suspense q.b. e uma linguagem clara e acessível, o que dá muito jeito quando se lê em alemão!

Parece que do autor ainda só há este livro traduzido para português, o que é uma pena, porque "Um amigo perfeito", numa tradução livre, daria um bom projecto de tradução aqui para a amiga. Just sayin'

 

 

Alexandra

"Conseguiu adiantar alguma coisa? Ele respondeu minutos depois: Não se preocupe :) :) :) . . . os problemas hadem ser resolvidos ! . . . Fiquei hipnotizada. Espaços entre os pontos das reticências? Caralho, a minha vida é rever gralhas. Aquilo não era uma gralha. Aquilo era a chamada da selva, onde a vida e a gramática podem enfim recomeçar."
in O meu amante de domingo, Alexandra Lucas Coelho

Porra, isto é a minha vida, pensei, rever gralhas, pensei, sentada no café por detrás da rua principal da estrada que leva à vila, enquanto comia uma quiche excessivamente aquecida. Excepto que eu não tenho nenhum amante de domingo. Ou de qualquer outro dia da semana, ressalve-se. E continuei a ler O meu amante de domingo com aquela sofreguidão de quem não se deixa enredar por um bom livro há demasiado tempo. E foi assim que vim a correr para casa, quase literalmente, não fosse ter começado a chover, para vos contar que ainda mal o comecei a ler e já o acho o livro do século.

Calo no pé


Deambulando pelos corredores da biblioteca à procura de um dicionário de direito alemão que não havia, resolvi trazer um livro para casa. Depois de me admirar com a arrumação minuciosa da secção de ficção, com os livros organizados por país de origem, demorei muito tempo a escolher um livro. Mesmo muito tempo. Confesso, aliás, que foi dramático. Nenhum dos livros que pedi para o Natal se encontrava disponível e a maior parte dos livros que me chamaram a atenção eram livros, cujos exemplares tenho eu em casa, o que diz muito sobre esta necessidade de trazer coisas novas para casa quando ainda temos coisas novas em casa. Lá peguei num livro de Virginia Woolf e levei-o para a mesa para me ir habituando à ideia, mas acabei por decidir que não tenho paciência para Virginia Woolf e devolvi-o à estante. Peguei neste e naquele livro, folheei este e aquele livro, li o primeiro parágrafo deste e daquele livro e acabei por devolver todos à estante. Por fim, peguei num Doris Lessing e deixei-o repousar nas minhas mãos. Requisitei-o, sem grande convicção, contudo. Estava-se mesmo a ver que não vou conseguir lê-lo até ao fim antes de o prazo de entrega terminar, mas trouxe-o, mesmo assim. Porque tinha mesmo de trazer um livro novo para casa.

Isto fez-me lembrar a minha filha mais velha e acho que consegui entender, finalmente, o que ela sente quando entra no quarto das brincadeiras (nesta casa partilho o quarto onde está a minha máquina de costura com os brinquedos das miúdas) e vê tantos brinquedos à sua disposição*. 

E foi assim que cheguei à magnífica conclusão de hoje: destralhar é como ter um calo no pé. Por muito que se tire, que se raspe, que se amacie, o calo volta sempre a nascer. A não ser que se ampute o pé. Mas agora já estou a desconversar.


este texto 

Feira

Podíamos ter esperado, mas optámos por ir logo no primeiro dia à Feira do Livro. Pouca gente, pouca confusão, sem bonecos gigantes para meter medo, os livros de sempre a preço reduzido e a benesse de este ano haver opções bem mais saudáveis para trincar (adorámos as batatas fritas de batata doce e os palitos de cenoura crua com molho).

Este foi o resultado.

Está visto que tenho de lá voltar sozinha.








(obrigada pela sugestão!)

Mães com sentido de humor (e ainda o Dia Mundial do Livro)

Acontece-me sempre que tenho filhos (até parece que já tive uns quatro...). Logo nos meses a seguir ao nascimento, consigo manter mais ou menos os hábitos de leitura, aproveitando o tempo em que dormem ou mamam. Mas por volta do quarto ou quinto mês, tendo a adormecer à segunda página, perco o fio à meada, pego noutro livro, volto a perder o fio à meada, às tantas já ando a ler quatro ou cinco livros ao mesmo tempo e acabo por não ler nenhum.

Desta vez, por ter um telemóvel daqueles inteligentes que faz tudo menos fritar batatas, o telemóvel acaba por ser a minha grande companhia quando tenho de dar de mamar a meio da noite. Podia ler livros no telefone, podia, mas acabei por substituir a leitura de livros pela leitura de blogues, não só aqueles que sigo diariamente, como até mesmo a leitura integral de alguns (poucos) blogues que me fascinaram ao ponto de querer descobrir o que se escondia nos arquivos.

Li na íntegra uns quantos desses blogues, maioritariamente blogues de mães como eu para quem a maternidade não é um quadro cor-de-rosa cheio de fofos e folhos, mas sim uma realidade dura que nos cansa e enche de culpa, mas também nos recompensa com aqueles momentos de ternura e auto-realização que nos marejariam os olhos de lágrimas se fôssemos do tipo romântico. Daí que, nos últimos cinco meses, a meio da noite, enquanto vocês dormem, eu ando a investigar os arquivos dos blogues do outros, familiarizando-me com as autoras desses blogues e as suas famílias como se de personagens literárias se tratassem. Não as conhecendo pessoalmente, resta-me imaginar como serão os seus gestos no dia a dia, a sua voz, as suas roupas, a forma como fazem festinhas ou gritam com os filhos.

Foi mais ou menos assim que fui dar ao blogue da Inês Teotónio Pereira, um blogue divertido sobre as aventuras de ser mãe de seis filhos (sim, seis!), e ao seu livro Humor de Mãe. Mesmo que algumas das suas ideias de direita sobre o aborto, a co-adopção e outras que tais estejam em extremos opostos das minhas, divirto-me muito com a maneira irónica como escreve sobre a maternidade e revejo-me bastante em alguns pontos. Foi este o livro que comprei ontem (porque a Feira do Livro ainda tarda) e é esta a recomendação que deixo aqui para o Dia Mundial do Livro. Por doze euros (e uma capa que faz lembrar a vaselina Couto!), vale a pena dar algumas gargalhadas e pensar que não estamos sós nesta dicotomia de amarmos os nossos filhos, mas às vezes já não os podermos ver pela frente.

Aqui um pequeno excerto.

Feliz Dia do Livro

Ontem, numa livraria, um senhor de alguma idade e desmazelo, uma espécie de cientista maluco das letras, pedia conselhos sobre a obra mais conhecida de Fernando Pessoa. Passaram-lhe a "Mensagem" para as mãos e ele perguntou se ali se encontrava tudo o que de mais importante o poeta tinha escrito.

Ó lá! Daqui vai sair boa, pensei. Agucei o ouvido e pus-me à espreita.

Depois de folhear algumas páginas, ler meio desconfiado, virar e revirar o livro, o senhor entrega-o à menina, agradece e despede-se em jeito de lamento:

- Uma pobreza de espírito, este Pessoa. Estrofes irregulares, desritmadas, sem respeito pelas regras... Ai, que miséria! Os alentejanos é que valem a pena ler. A Florbela e esses. Agora o Pessoa... É que não há quem o entenda.

O empregado teve alguma dificuldade em conter o riso enquanto fazia a minha conta. E eu pus-me a pensar em todos os heterónimos de Pessoa. Se calhar, coitado, nem ele próprio se entendia, por isso é que teve de se recriar tantas vezes.

De qualquer maneira, sendo hoje o Dia Mundial do Livro, acho que deviam ir ler qualquer coisa. Não necessariamente Pessoa. Mas também pode ser.

A rapariga até é de letras e tem a mania que sabe o que é literatura


A minha mãe, que é fã daquele famoso escritor que é também apresentador de televisão do canal público, não sei se estão a ver quem é, convenceu-me a trazer um dos best sellers do senhor. Garantiu-me que era muito bom, um autêntico page turner, embora não tenha usado esta expressão, e que era o livro ideal para ocupar a minha mente cansada. - Ainda ontem não fui capaz de dizer a data de nascimento da mais nova sem me enganar duas vezes e, logo a seguir, inventei, sem querer, o meu número de telemóvel. Assim vão as coisas. - Já tinha lido um romance dele, o primeiro, que não achei nem bom nem mau, mas aquela cena de amor demasiado ao jeito dos livros da Harlequin deu-me, muito sinceramente, vontade de rir e só por causa disso achei-o, afinal, um bocado pobre.

Lá trouxe o livro para casa, convencida de que se fosse uma espécie de Dan Brown português a coisa até seria agradável, visto que durante as mamadas da noite confesso que os meus olhos e a minha mente precisam de algo estimulante e com o nível de dificuldade da banda desenhada do Tio Patinhas.
Mas este livro... Por onde hei-de começar? Pelas palavras em estrangeiro pretensiosamente colocadas por dá cá aquela palha, que mais parecem serem obra de vaidade do que propriamente para dar alguma veracidade aos diálogos? Aposto que a maioria dos leitores deste senhor não sabe inglês e estou mesmo a ver a minha mãe aos papéis em certas passagens.
Depois há a infantilização da personagem principal, um historiador e criptógrafo de 40 anos que é tratado pela mãe como se ainda tivesse 12 anos e que, apesar da sua implícita literacia, revela ter a cultura geral de uma minhoca. Além disso, nos diversos diálogos que mantém com outras personagens o leitor fica mesmo com a impressão de que a sua idade mental não será 12, mas 18. Os diálogos são todos um pouco adolescentes... as cenas de engate, então, de bradar aos céus. E depois aquele diálogo-monólogo enooorme com o pai dele não passa de masturbação científico-religiosa-intelectual.

Confesso, estou a ter dificuldades com o calhamaço. Achei o Ulisses bem mais fácil de ler e até esse ficou pendente ao nono parágrafo. Mas vou insistir para perceber como raio é que este senhor vende milhares de livros de uma assentada. Já deixei livros a meio por menos, por isso é bom que nas próximas 50 páginas a coisa comece a ficar interessante.

Querida Alexandra, perdoar-me-ás por te ter interrompido por isto?