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Bolas de Berlim... sem creme

Um blogue que não é de culinária (apesar de ter algumas receitas)

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Ulisses

"A necessidade é aquilo em virtude do qual

é impossível que uma coisa possa ser de outro modo."

(in Ulisses, James Joyce)

 

Às vezes, quando penso que estudei Literatura, nem acredito. Quando penso que aos 18 anos lia Saramago, Pessoa, Bocage e Baudelaire, não me reconheço. Quando penso que estudei a fundo autores alemães como Novalis, Hofmmanstahl e Kafka, que andava sempre com um livro na mala e que lia 3 a 4 livros por mês, tenho de fazer um esforço honesto para pensar em como cheguei à situação a que cheguei: a de uma pessoa a quem a maternidade e a vida adulta sufocaram a capacidade (e vontade) de manter uma rotina de leitura digna de uma antiga estudante de Literatura. Ultimamente só leio livros técnicos, ensaios e biografias que raramente termino ou romances leves e fáceis que me permitam ler mais de 3 páginas à noite sem adormecer. Acontece, assim, que estou a ler vários livros ao mesmo tempo, sem verdadeiramente estar a ler nenhum. São eles um romance leve em alemão (mas como é em alemão já perdeu toda a leveza que podia ter) sobre um grupo de amigas, totalmente diferentes entre si, que decide fazer o caminho de Santiago, um livro sobre destralhar, em inglês, um livro sobre parentalidade consciente, em português, e outro livro em alemão sobre uma jornalista que se decidiu preparar para o colapso do sistema financeiro e passou um ano sem compras. Se virmos bem, nada disto é estranho em mim, pois são temas pelos quais me interesso bastante e sobre os quais costumo falar aqui.

Mas... e os clássicos, pá? E a Literatura, com L grande? Sou ou não sou uma ex-aluna de Teoria da Literatura? Estudei ou não estudei a fundo Kafka, Novalis, Thomas Mann? Li ou não li o Beowulf?

 

(fim da arrogância e pausa para suspirar)

 

Há um tio na família, pessoa muito culta e letrada, que no Natal nos costuma oferecer os grandes clássicos da Literatura mundial. Desde Dante a John dos Passos, Pamuk ou Cervantes, acho que ainda só falhou nos russos (a ver se num destes almoços lhe digo que ainda nunca li Tolstoi).

É claro que ainda não lemos nenhum. Vamo-los acumulando na estante da sala, estrategicamente dispostos para visita ver. Ao menos isso.

Mas há um que chama por mim: o Ulisses, do James Joyce, na nova tradução. 900 páginas que descrevem os acontecimentos de um só dia, numa paródia à Odisseia de Homero. Aberto a várias interpretações, não é um livro fácil. Mas em 2007, não sei por alma de quem, meti na cabeça que teria de ler o Ulisses de uma ponta à outra durante um ano. Assim, entre Janeiro e Junho, li 9 capítulos (são 12), e teria conseguido terminar a odisseia, não fosse ter regressado a Portugal em Julho e, portanto, ter perdido o foco. Mas, na memória das várias anotações que fiz sobre o livro, fui pesquisar num dos meus antigos blogues, onde as escrevia, e logo me acometeu uma grande vontade de retomar essa leitura.

 

Estava eu nestes pensamentos quando entrou um gato pela portinhola dos gatos (que já são dois). Era o "gato pequeno" como lhe chamávamos - até ao dia em que lhe inventei um nome. O "gato pequeno" que nos rondava a casa em busca de comida e afecto e dormia cá dentro sem nós sabermos. O "gato pequeno" que nos escolheu a nós como família, e que à noite se aninha ao Dexter e ao Balzac em cima do banco da sala, de preferência sobre os lençóis acabados de secar que eu, displicentemente, não arrumei logo. E foi por isso, devido ao cruzamento destes pensamentos, no preciso momento em que decidi voltar a pegar em James Joyce, que escolhi o novo nome para o nosso novo gato.

 

Sejas muito bem-vindo, Ulisses.

 

IMG_9980.JPG

(e chegámos ao ponto em que já tenho mais gatos que filhos)

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