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Bolas de Berlim... sem creme

Um blogue que não é de culinária (apesar de ter algumas receitas)

Bolas de Berlim... sem creme

Um blogue que não é de culinária (apesar de ter algumas receitas)

Quaresma infiel


Parece que hoje começa a quaresma.

Antes que me tomem por beata, aviso já que não sou religiosa, crente, seguidora de cultos nem tão pouco simpatizante. Não acredito no destino nem na reencarnação e acho que Jesus existiu, sim senhora, mas foi apenas um homem sábio, um profeta dos seus tempos, que dizia o que tinha de ser dito e, por isso, foi amado por muitos e odiados por outros. Acho que Deus existe em cada um de nós, para o bem e para o mal, na forma de energia positiva ou negativa que transmitimos e que vai influenciar tudo o que nos rodeia, só isso. Mas este ano vou celebrar a quaresma. 
Passo a explicar.

O meu homem já há dois anos que se lembrou que a quaresma cristã, altura de reflexão e contenção que começa na quarta-feira de cinzas e termina na Páscoa, exactamente 40 dias, seria uma óptima altura para entrar num regime de alimentação saudável, exercício e meditação que ajudasse a criar bons hábitos que permanecessem após estes 40 dias. Eu nunca o levei a sério e ele acabou sempre por só se lembrar da quaresma quando esta já tinha começado há vários dias. Lucky me, que normalmente sou arrastada para este tipo de devaneios desafios.

Mas este ano lembrou-se a tempo. Como tal, foi ver o verdadeiro significado de quaresma e decidiu adaptá-lo para a nossa realidade pessoal que, não sendo pessoas religiosas, queremos abraçar um estilo de vida mais calmo, saudável e cheio de amor ao próximo. Confesso que nesta parte dei uma valente gargalhada... Não é que eu não tenha amor pelo próximo, mas precisar de tempo para reflectir sobre formas de o cultivar é algo que me dá vontade de rir e me remete para imagens de escuteiros a ajudar velhinhas a passar a estrada só para ganhar medalhas. Mas já estou a ser herege.

Ao que interessa. Então o que diz a nossa Carta de Princípios da Quaresma Infiel? Sim, porque há uma Carta de Princípios. Ou pensam que isto é alguma ideia louca de quem não tem mais nada que fazer do que planear uma quaresma infiel? Humm.

- Vamos comer melhor. Vamos reduzir ao máximo os alimentos de origem animal (esta já não é difícil), cortar nas bebidas alcoólicas, cortar nos doces (oh Lord...), beber suminhos verdes de manhã, não comer muito à noite, e fazer um ou outro jejum (estou, felizmente, excluída dessa parte).
- Vamos incluir o exercício físico na nossa rotina diária: vou continuar os meus treinos de corrida três vezes por semana e vou incluir ainda natação outras três vezes por semana (piscina ao pé de casa, perfeitamente fazível à hora de almoço). Descanso ao sábado.
- Vamos começar a meditar... Aqui convém dizer que o Tiago já fez um retiro espiritual de dez dias em que não podia falar e passava o dia de pernas cruzadas a meditar. D-E-Z dias. Estão a ver a estafa? Na verdade, foi assim que ele me conquistou. Quando nos conhecemos, fiquei fascinada com a sua maneira calma de falar e de se expressar e quando me começou a falar sobre o retiro de que tinha regressado há pouco mais de 2 meses, fiquei completamente rendida. Por isso, longe de mim gozar sobre este ponto da Carta de Princípios. E já começámos hoje. Dez minutinhos, para me ir habituando, dos quais 9:23 foram passados a pensar em tudo e mais alguma coisa menos na respiração...
- Vamos usar este tempo para reflectir no tal amor ao próximo (ah ah ah), na nossa vida, na nossa família, nos laços que precisamos de estreitar com a minha nossa família (temo que 40 dias não cheguem...) e naquilo que procuramos para nós. Parece-me bem.
- Como tal, acabaram-se os filmes e as séries à noite. Agora vamos ler e meditar e costurar e fazer coisas que alimentem a alma e a mente. Nada de séries fixes sobre rivalidades, invejas e lutas de poder. Nada disso, que horror. É tudo obra do demo.

Confesso que estrebuchei um pouco neste último ponto. Principalmente quando ele me diz que podemos substituir estas séries por documentários sobre a vida animal (WTF?), corrida e meditação Vipassana. Mas acho que ele estava a brincar...

A melhor parte é que hoje, quarta-feira de cinzas, o primeiro dia das quaresmas (fiel e infiel), temos um jantar a que queremos mesmo ir e onde é provável que o consumo de carne, doces e álcool vá para lá do aceitável segundo os desígnios da quaresma. Posto o que estou com "fé" que a coisa não seja levada assim muito a sério e daqui a cinco dias eu já possa voltar a ver o House of Cards.

Ah, acho não era suposto dizer isto...

Um longo texto autobiográfico ao estilo yes, you can!

Pensei muito antes de escrever este texto. Pensei se o deveria escrever. Pensei se me sentiria bem comigo depois de o escrever. Pensei se me sentiria aliviada depois de o escrever.  E a resposta a todas as perguntas foi sim, sim, sim. Na verdade, a par de uma necessidade imensa de partilhar a minha alegria, acho que procuro uma espécie de closure. 2012 foi o ano em que decidi enfrentar o elefante na sala e resolver os meus... chamemos-lhes conflitos interiores. Estou no bom caminho. Mas há um passo que falta. Vamos a isso, então.

Muitos dos que me lêem e conhecem não saberão, outros já terão detectado algo, um arrastar no andar, um coxear que só se nota às vezes, provavelmente aleijou-se, provavelmente as pessoas são polidas demais para perguntarem. Eu agradecia que não perguntassem. Na verdade, é um assunto que me incomodava tanto que quando um estranho abordava a questão, eu mentia. Passei 32 anos da minha vida a esconder, a fugir e a mentir, mas em 2012 resolvi deixar de o fazer, ou em certa medida, vá, e cá estou eu para contar a minha história a quem quiser ouvi-la.

Nasci com um problema no pé, um problema que parece que afinal é bastante comum acontecer à nascença: estima-se que um em cada 1000 bebés nasça com pé boto (basicamente, o pé nasce torto, completamente virado para fora ou para dentro). Eu não fazia ideia destas estatísticas. Nem fazia ideia de que pode ter uma influência genética importante e, logo, uma carga hereditária. Quando fiquei grávida nunca coloquei a hipótese de que a minha filha pudesse nascer com o mesmo problema do que eu, porque sempre pensei que não fosse genético e se devesse apenas a uma má posição intra-uterina. Foi sempre isso que os meus pais me disseram e que um médico, actualmente, corroborou. Mas esse médico também disse: pode ser hereditário e pode não ser, pode ser genético e pode não ser, não se sabe bem. Mas também me assegurou que hoje em dia a medicina está tão avançada que os métodos medievais usados nos anos 80 passaram à história e agora uma única e simples cirurgia resolve a situação, sem deixar sequelas na vida adulta. Já não são precisas as oito cirurgias a que fui submetida dos 11 meses aos 16 anos, nem os longos Verões de recuperação, nem temporadas inteiras na sala de fisioterapia nem uma longa adolescência de dores de pé e de alma (os miúdos são tão cruéis quanto frágeis e sobre isto não há muito mais a dizer).
Se tive uma infância de merda? Durante muito tempo achei que sim. Mas a minha infância está tão recheada de todos os cheiros e sabores e memórias e lugares e pessoas marcantes como a infância de qualquer um de vós.

Mas tive sempre muitas dores. Dores que com a idade se vão agravando, dores que são uma constante sempre que viajo (o que implica longas caminhadas e muito tempo em pé) e sempre que o tempo muda (sim, dores de velho...). E sempre achei que, não sendo diferente dos outros na maior parte das coisas,  havia coisas que eu nunca poderia fazer, como correr, patinar, fazer yoga, fazer esqui. Mas especialmente correr. Sempre que tentava, nesse dia ficava sem me poder mexer. Curiosamente, nunca me lembrei de tomar analgésicos. Sempre recebi a dor como parte de mim, como natural, constante e inevitável. A par da dor, os complexos com namorados, as difíceis idas à praia e tudo o resto com que não me vou alongar muito porque também isto já vai fazendo parte do passado.

Até que um dia conheci aquele que é hoje o pai da minha filha. Foi ele que, aos 28 anos me levou a esquiar pela primeira vez e me mostrou que era possível (até a segunda vez as hormonas do pós-parto terem estragado tudo). Foi ele que, aos 29 anos, me ofereceu uns patins e me mostrou que era possível (até que um embate de cabeça em que senti, literalmente, o crânio a chocalhar, arrumou com os patins de vez). Também foi por volta dessa altura que me inscrevi no yoga e encontrei uma professora, doce e competente, que me acompanhou e fez um programa personalizado para substituir os exercícios em que sentia mais dificuldade, como tudo o que pedisse equilíbrio na perna direita. Voltando ao marido, foi ele que, aos 30 anos, para manter uma sequência cronológica, me mostrou que era possível fazer longas caminhadas, caminhadas de duas horas, de 4, 6 e 8 km, sem tanta dor quanto isso. Foi ele que, finalmente, aos 32 anos me mostrou que era possível correr 30 minutos sem parar e sem tanta dor quanto isso. Mais importante do que isso, foi ele que me mostrou que eu podia acreditar em mim e deixar de ter tanta peninha de mim mesma. Esta é uma das razões por que eu gosto tanto dele, o admiro tanto e quero tê-lo ao meu lado sempre!

De cada vez que completo 30 minutos de corrida sem parar, é mais um degrau na minha auto-confiança. Por incrível que pareça, correr, na qualidade de actividade que eu julgava impossível dada a minha condição física, foi umas das coisas que, no ano que passou, me começou a dar a auto-estima e a auto-confiança perdidas na adolescência. É como se sentisse que, conseguindo isto, consigo tudo. Se consigo correr 4 km, também consigo correr 8 ou 10. Se treinar, hei-de conseguir. Está tudo na minha cabeça, não nos meus pés (a esta altura está ele a pensar "Mas isso é o que eu te ando a dizer há cinco anos!"). Por isso, se eu consigo, qualquer um de vós com os dois pés no sítio e sem cicatrizes nem ossos remexidos também consegue. Não querer é uma coisa, não conseguir é outra completamente diferente. Ai de quem agora me venha com desculpas esfarrapadas!!

Há pouco tempo, voltei ao ortopedista, por causa de uma dor na anca já quase resolvida, que me desmistificou uma série de dúvidas e me mandou fazer "qualquer coisa, corra, nade, ande de bicicleta, mas mexa-se!" 
Fiquei animada. Comecei a procurar mais informação na net e de, repente, encontrei uma série de pessoas em pior estado do que eu, ou a quem as cirurgias não endireitaram o pé, mas que correm que se fartam e participam em corridas a sério. Encontrei, inclusivamente, um iron man com o pé em bem pior estado do que o meu mas com uma determinação admirável. Aos 32 anos espero que não seja tarde demais para voltar a tentar reabilitar os músculos entorpecidos, para correr a minha primeira corrida a sério, para exercitar o pé como gente grande. Eu sei que há alguém que quer que eu diga que vou voltar a patinar e a esquiar, mas não há mesmo espaço para isso agora. Tudo a seu tempo. Quem sabe daqui a um ano não vou querer voltar a experimentar?

E quase a chegar ao auge da catarse: se isto não é o texto mais positivo que escrevi, esperem só até completar a minha primeira corrida de gente grande!

P.S.- Ah, e este blogue comemora hoje um ano. Não foi de propósito, mas este texto também funciona como uma espécie de festejo do blogue.

Mais informações sobre o pé boto aqui e, em inglês, aqui.

Mãos frias... coração quente?

A pior parte de trabalhar em casa é o frio.
A casa onde vivo actualmente não é particularmente fria. Na verdade, de todas as casas onde já vivi é capaz de ser a menos fria (à excepção das casas na Alemanha sempre bem aquecidas à temperatura "t-shirt"). Mas quando não se tem ar condicionado como havia no escritório e se está sentado ao computador durante 4 horas, não há parte do corpo que não comece a congelar, desde as solas dos pés à ponta do nariz.
As mãos são as mais afectadas porque são as únicas que não posso aquecer sem que isso afecte o meu rendimento. Já experimentaram teclar de luvas? Pois.
Portanto, do que eu preciso é de uma coisa assim:


Os detalhes do projecto estão aqui. Só preciso de alguém que saiba tricotar e se disponibilize a fazer umas. Eu pago!!!

P.S.- Se souberem de moldes para aquecedores de nariz, também agradeço.

Qual é o teu disfarce?


No Carnaval do ano passado, a minha filha foi para a escola vestida de bruxinha, num fato com vassoura e chapéu que lhe fui comprar à pressa no chinês do bairro. Não correu bem. Ficou com febre nesse dia e foi um Carnaval passado em cuidados.
Este ano, para ver se dava mais sorte, tinha pensado em vesti-la de moçambicana com vestido e lenço de capulana feitos por mim, deixando só de lado a pintura da cara devido à tenra idade e incapacidade de estar quieta muito tempo...
Mas ela acabou por herdar o fato de elefante da prima que lhe fica a matar e que ela adorou (depois de uns primeiros instantes de pânico com medo da tromba do bicho), o pai adorou por ser quentinho e dar tão pouco trabalho a vestir e eu adorei porque, apesar de ficar com pena de não ser eu a fazer-lhe o fato, convenhamos que ainda não tinha sequer começado a planear a coisa e estava a antever uma noite de quinta para sexta muito pouco relaxada.
E, ao fim e ao cabo, acaba por ficar tudo no mesmo continente!

Para o ano já tem fato de índia. Mas, pelo sim pelo não, vou guardar uns restos catitas de capulanas...

"Space Babies"



Entretanto, num mundo em que não há murros no estômago nem bombas prestes a explodir, a minha filha já entrou na fase de gostar de ouvir histórias. Reformulo. Ela já estava na fase de gostar de ouvir histórias. Mas agora pede-me histórias quando não tenho nenhum livro ao alcance num raio de 5 metros. Me-do.
Na verdade, a culpa foi minha. Um dia, quando lhe deu para não querer comer, inventei a história da gata Mimi, do galo Sansão e do cão Pop (tudo baseado em personagens verídicas, para dar um ar mais verosímil à coisa), que eram muito amigos e um dia partiram juntos à descoberta do mundo (mantém-se a verosimilhança...) e ela agora, de vez em quando, cá vai disto: "Eu quero a história da gata Mimi."
E cruza os braços e arregala os olhos e faz um ar de suspense quando eu começo a balbuciar a história da gata que subia paredes.
Portanto, ou começo já a aperfeiçoar a minha capacidade inventiva, ou daqui a 3 anos está-se mesmo a ver que tenho de comprar um Kia.

(...)

Imaginem que estão a participar num concurso de perguntas e respostas em que, por cada resposta errada, levam um murro no estômago. Imaginem que ia tudo muito bem até chegarem a uma pergunta para a qual vos deram um cartão com todas as respostas possíveis. Vocês sabem, contudo, que qualquer uma destas respostas vai ser interpretada pelo sistema como errada, mas têm mesmo de dar uma resposta. Estão num impasse. Escolhem aquela que menos probabilidades tem de ser mal interpretada, mas, como sabem que isso não é possível, aguardam o murro no estômago com ansiedade. Estão naqueles instantes que antecedem o murro no estômago e ele nunca mais vem, mas vocês sabem que vem, por isso é só prolongar um pouco mais a ansiedade. Fecham os olhos e preparam-se. Contraem os abdominais. Cerram os dentes. Ele vem mesmo aí.

Imaginaram?

Pois é assim que eu me sinto.

I don´t hate mondays, but...

Eu estou a tentar cultivar o positivismo, juro que estou, mas depois de um fim-de-semana passado a tentar compreender o que leva certas pessoas a ter certas atitudes e com vontade de atirar a almofada contra a parede (ainda se fosse o prato, agora a almofada...), sinto-me no pleno direito de despejar a minha raiva sobre tudo aquilo que me irrita assim que abro o Facebook pela manhã:
- As metáforas do Tico e do Teco para exemplificar a sonolência típica de segunda de manhã;
- Quando chegamos a quarta-feira e ainda vemos posts a dizer que nunca mais é sexta;
- Erros ortográficos, todos eles, qualquer um deles, mas quando escrevem "voçê", tenho vontade de os estrangular na sua própria cedilha;
- A malta que passa a vida a participar em giveaways e, por isso, temos de levar com mil e uma partilhas no nosso mural desde perfumes a golas de crochet (wtf?);
- A malta que usa e abusa (e abusa e abusa) de pontos de exlamação e coraçõezinhos para dizer o que quer que seja!!!!!!!
- A malta que não sabe que escrever com letras grandes na Internet equivale a GRITAR NA VIDA REAL;
- A malta que adora escrever com letra grande substantivos como amizade, amor, felicidade. Mas PORQUÊ? Só os alemães é que escrevem os substantivos com maiúscula e é só a Inicial, sim!?
- A malta que não sabe usar o Lol. Exemplo: "Está um belo dia!!!! (coraçãozinho) LOL". A sério? Ainda por cima em maiúsculas?
- Fotografias de cãezinhos e bebés para dar as boas-noites ou desejar um bom fim-de-semana.

Pronto, com esta já comecei a implicar. Mas já me sinto melhor.

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