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Bolas de Berlim... sem creme

Um blogue que não é de culinária (apesar de ter algumas receitas)

Bolas de Berlim... sem creme

Um blogue que não é de culinária (apesar de ter algumas receitas)

Luther



Ele é inteligente, astuto, audaz. Ele é impulsivo, apaixonado, colérico. Ele continua perdidamente apaixonado pela ex-mulher, mas tem um sério problema de gestão da raiva. Ele é detective da polícia de Londres e fala naquele sotaque que faz arrepiar os pelos dos braços. Ele consegue (quase sempre) deslindar os casos mais escabrosos de uma forma muito pouco ortodoxa, à medida que a sua vida pessoal se vai desmoronando (e é isto que faz um bom policial). Ele faz-se acompanhar da melhor banda sonora que já ouvi numa série: abre com Massive Attack e termina com Suede, Muse, Beck, ou Nina Simone. No quinto episódio aparece Sia com a sua "Breathe Me" num daqueles fins de episódio que nos dão volta ao estômago. Ele é Luther. John Luther. E gosto destas séries que só começo a ver já a coisa vai na terceira temporada. Imagine-se, ainda só vou a meio da primeira e ainda tenho tanto para ver. Tão bom.

Casa das relíquias

Depois do fantástico workshop de crochet a que fui no sábado na Retrosaria, um sítio a que dá sempre vontade de voltar, de mexer em tudo, de sentir a textura de todos os tecidos giríssimos, de folhear todos os livros japoneses e de ter uma casa assim, cheia de mantas de retalhos penduradas nas portas e bonecos de pano gigantes no quarto das crianças, voltei a pensar na manta de crochet da minha avó.


Por um acaso divino que me ultrapassa, dei com a dita manta em casa da minha mãe, bem embrulhadinha num plástico da 5 à sec, nos confins de um roupeiro que já quase ninguém abre quando, no domingo, eu e a minha mãe procurávamos o resto dos 53 mil panos de cozinha que herdei de enxoval e já me vão dando jeito desde que tenho uma mulher-a-dias que confunde panos da loiça com trapos limpa-tudo.
Lá estava ela, linda, única e inestimável, a manta que a minha avó fez com as suas próprias mãos e que foi adornando, durante décadas a fio, todas as camas do casarão, agora ali fechada num roupeiro a ganhar mofo, tudo porque a minha mãe tem preguiça de remendar um buraco num dos cantos da manta. Lá consegui convencê-la de que a manta merece muito mais do que ficar enfiada num canto do roupeiro a atrair traças e demais bicharada, e que ficava mesmo bem na casa da neta mais nova, mediante a promessa solene de remendá-la, expô-la e tratá-la como aquilo que é: uma peça artesanal irrepetível com uma história contada em cada quadradinho.


 Nos panos da loiça já ninguém pensou, claro, mas depois de tudo o que ganhei ontem (fora a manta, foram restos de tecido vintage, restos de lã para ir praticando a minha recém-nascida aptidão para o crochet guardados uma caixa de metal vintage mais velha que eu que, reza a história muito pouco romântica, veio de Espanha cheia de bolachas, um livro daqueles maravilhosos dos anos 70 com lições de costura, tricot e crochet e que ensinam a fazer tudo, repito tu-do, e roupa que vesti em bebé feita pela mão da minha mãe e que escapou ao meu escrutínio da primeira vez que dei volta ao baú aquando do nascimento da primogénita), acho que fiquei bem servida. Isto sem contar com os casaquinhos de malha, fraldinhas debruadas e babygrows que a minha mãe insistiu em fazer e comprar para a mais nova, como se nós não tivéssemos caixas cheias de roupa da primogénita para reutilizar e estivéssemos mesmo precisados de mais uma fralda que dá tanto jeito para tapar a janela do carro. 
De facto, uma coisa que já percebi é que as mães têm um grave problema de surdez crónica em certas e determinadas situações. "Não precisamos" é muitas vezes confundido com um "Por acaso, dava-nos jeito mais um" e "Não quero, obrigada" é tomado como "Vê lá, não te quero dar muito trabalho...". Portanto, é deixá-las fazer. Elas gostam, sentem-se úteis e avós à séria e a gente arranja sempre mais um espacinho no armário. 
E com isto lá se vão os meus princípios do destralhanço...

Sugestões para remendar isto ou basta mesmo fechar o buraco com uma linha da mesma cor?
Os primeiros passos


Progressos

O produto final, uma amostra de cinco pontos mais ou menos mal amanhados...

A caixa das bolachas espanholas aka caixa vintage para guardar restos de lã

Senhor Amolador

Da próxima vez que eu sair à rua de tesoura da costura dentro da mala (só porque me poderiam prender se andasse na rua de tesoura na mão), acorrendo ao chamamento da sua harmónica, faça favor de não desaparecer tão depressa como chegou. Eu pensava que o senhor amolador ainda andava numa bicicleta de 1963. Mas, pelos vistos, já anda de skate.

Atenciosamente,

Uma habitante do bairro que precisa mesmo mesmo de amolar a tesoura e que já não consegue correr tão depressa como se tivesse 53 kg.

Crochetando



Nunca esperei voltar a aprender crochet, mas é já amanhã, na Retrosaria, com a Rita Cordeiro
Quando a minha mãe souber, ela que sempre insistiu tanto para que eu fosse uma donzela prendada na arte de bem manejar as agulhas, é capaz de lhe dar um achaque. "Mas eu tentei ensinar-te!" Sim, mãe, há 20 anos atrás, quando eu achava que crochet era coisa de velha maluca por naperons.
Hoje em dia o crochet foi reinventado. Já é cool costurar, fazer malha e crochet. Já não é só coisa das mães e das avós, já não serve só para fazer naperons para pôr em cima da televisão e, apesar de ainda haver muita gente que pensa que esta coisa das manualidades é para donas de casa frustradas, eu estou cada vez mais fã, babo-me a olhar para certas fotos que vou encontrando na Internet e penso sempre como gostaria de conseguir concluir uma peça destas,

como as mantas de crochet com que cresci em casa da minha avó alentejana e que ainda espero vir a adquirir um dia. 
Eu: Mãe, depois quando fizerem as partilhas, podes tentar muito ficar com a manta, as almofadas de crochet e a máquina de costura Singer da avó, para mim?
Ela olha para mim com aquele ar esgazeado "Deves estar mas é maluca", informa-me que já tinha pensado em ficar com essa parte da herança para ela e não pondera, por um minuto sequer, passá-la directamente para mim. E eu pergunto-me, para onde foi parar o altruísmo de mãe, humm? É tudo só para os netos agora? Já não se abdica de tudo em prol dos filhos na idade da reforma? De nada? Nem de uma roseta?


Imagens retiradas da Internet/Pinterest

Deixar as crianças ser crianças

Este domingo juntámos uns quantos amigos e respectiva criançada para uma sardinhada. Depois de almoço assentámos arraiais no terraço de um deles e as crianças foram dar um mergulho na piscina enquanto as mães vigiavam e os pais iam passando do vinho para o licor Beirão (...). Às tantas, começou a ficar frio e as meninas começaram a sair da piscina. Já depois de seca e vestida, depois de ter parado de tremer e de os lábios terem ganho alguma cor, a Inês quis voltar para dentro do tanque em imitação de uma das outras crianças. Opus-me fortemente, com medo que se constipasse, mas o pai, naquela atitude laissez faire laissez passer tão típica de quem já passou do licor Beirão para uísque, encolheu os ombros e fez-me o sinal de "deixa lá ir a miúda, pá". Meio contrariada, lá a despi.

Então o que aconteceu? A Inês, normalmente medrosa e pouco arisca em coisas aquáticas, pôs as braçadeiras e começou a nadar sozinha, ou a esboçar aquilo que mais tarde será nadar, a mergulhar a cabeça na água depois de gritar "Mamã, olha!" e a saltar e chapinhar, destemida, com um sorriso de orelha a orelha e uma felicidade que lhe saía da garganta às golfadas.

Acabou por só sair da água quando quis, não se constipou e eu senti-me um pouco envergonhada porque tinha tido uma atitude parecida à daquelas mães chatas e galinhas que costumo ouvir no parque a apregoar de 20 em 20 segundos: "Vê lá, não caias!", "Veste o casaco, não te constipes!", "Não subas isso que sujas as calças!", "Não se mexe na areia!" e irra, que tanto me irritam.

Se eu nunca a tivesse deixado voltar à água, supostamente para não se constipar, ela nunca teria tido a oportunidade de "nadar" e mergulhar sozinha sem estar agarrada às pernas dos pais e sem choramingar de cada vez que lhe escorria água pela cara. Não tinha, também, tido aquele momento de profunda felicidade que lhe ficaria marcado na memória caso fosse mais velha. Eu teria levado a minha avante, sim, teria podido sentar-me confortavelmente a comer petiscos sem estar preocupada em antecipar possíveis afogamentos, mas teria provavelmente impedido a minha filha de uma nova experiência. E essa possibilidade deixa-me muito triste.


Espero sinceramente que me sirva de lição para o futuro. Não quero ser daquelas mães chatas e rabugentas que querem os filhos quietos e sentadinhos para não amarrotar os calções. Quero ser daquelas mães que deixam os filhos mexer na lama para inspeccionar a vida das minhocas e chapinhar em poças de água e espalhar as tintas no chão da sala e subir às árvores e correr sem medo de cair e comer framboesas à mão sem medo de sujar o vestido e apanhar grilos para trazer para casa (humm, ainda tenho de pensar bem nesta). Quero ensinar-lhe a sentir-se livre. Mas, para isso, tenho de me libertar primeiro dos preconceitos parvos das nódoas que não saem e da febre que pode atacar. É preciso ter bom-senso e deixá-los ser crianças. Afinal, eles não sabem ser outra coisa.

Pedido de desculpas

Sou suficientemente humilde para perceber que posso ter cometido uma gafe e que posso ter ofendido outras mulheres. O post anterior deu origem a alguma celeuma, quer na própria caixa de comentários, quer fora dela. Apercebi-me de que não tive em conta factores como a genética de cada pessoa, que relativizei e fiz passar uma imagem de mim que não coincide, de todo, com a verdade. Acho que talvez não me tenha explicado bem, mas isso agora já soa a desculpa manhosa.
Prometo que vou pensar melhor sobre este assunto e voltar aqui a escrever sobre as minhas conclusões. Mas, até lá, o post ficará intacto, com direito à continuação da celeuma, ou não, dependendo do tempo e da disposição das minhas leitoras. Todos temos direito às nossas opiniões. Vocês que me lêem e eu, que as partilho. E como o blogue continua a ser meu, continuo a achar-me no direito de expressar as opiniões que quiser. E vocês de as criticarem. Não podemos ter todos opiniões consensuais. Só tem de haver algum respeito. Da minha parte, as minhas sinceras desculpas se alguém se sentiu ofendido(a). Da vossa parte, agradecia apenas que passassem a assinar os comentários. Por uma questão de respeito.
Obrigada e bom fim-de-semana.

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