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Bolas de Berlim... sem creme

Um blogue que não é de culinária (apesar de ter algumas receitas)

Bolas de Berlim... sem creme

Um blogue que não é de culinária (apesar de ter algumas receitas)

Desta gente que só está bem a dizer mal, irra!

Estava eu sossegadinha na sala de espera da Segurança Social, a ler o meu livro (Nem Aqui Nem Ali, do Bill Bryson - daqueles que nos dá medo de ler em público, de tão difícil que é conter a gargalhada), consciente de que a espera seria longa, mas sem pressa alguma, quando, ao meu lado, se senta o acompanhante de uma grávida de... 5 semanas? (ainda estou para perceber como será que ela conseguiu convencer o segurança que distribuía as senhas prioritárias). Pouco tempo depois, o dito começa a bufar, de 5 em 5 minutos, de impaciência pela longa espera (isto 13 minutos depois de ter chegado). Como se bufar não fosse suficiente, começou também a gemer de forma sofrida, a bater com o pé furiosamente e a rezar umas palavras ininteligíveis. Não demorou muito até diminuir a cadência e aumentar o nível sonoro dos gemidos. Foi o que bastou para eu própria me começar a remexer na cadeira de que cada vez que a criatura soltava um suspiro. Foi aí que a coisa começou a correr mal.

Uma das teorias que prevalecem cá por casa é que o estado de espírito dos outros, a sua negatividade e impaciência se contagiam e/ou afectam o estado de espírito dos que têm o azar de estar por perto. Vamos a ver, estava a sala cheia e só havia duas pessoas a atender. Estávamos todos para o mesmo e havia ali pessoas desde as sete da manhã (os grávidos só chegaram pelas dez), a coisa estava demorada e não é por bufarmos todos em uníssono que o atendimento vai acelerar. Confesso que a coisa me começou a incomodar. Pensei em dizer-lhe isso mesmo e incluir um pedido que fosse bufar lá para fora, mas ocorreu-me o pensamento que o senhor era pessoa para começar a algaraviar impropérios dirigidos à minha pessoa e que, bom, não me apetecia ouvir. Se quem está mal, é que tem de se mudar, então eu mudei de lugar.

Pouco depois, começo a ouvir os rufias da fila de trás a criticar o serviço de atendimento, cada um a querer contar a que horas tinha chegado e há quanto tempo estava à espera, porque é que não podia demorar muito e o que lhe tinha acontecido da última vez que tinha precisado dos serviços da SS. Às tantas, já se atropelavam todos uns aos outros, quando um, como não podia deixar de ser, começou a dizer mal das pessoas que tinham (direito à) senha prioritária, pois, basicamente, eram uns mandriões, fossem para lá marcar lugar na fila às sete da manhã como ele tinha ido e deixassem os bebés em casa com o cônjuge, que respeitinho é muito bonito e isto é uma cambada de chico-espertos. Ora eu, que já começava a sentir contracções pelo simples facto de estar ali sentada numa cadeira pouco confortável (lembrar que a médica só não me quer sentada...) e de começar a suar com a falta de paciência para aquela gente, tive se segurar a minha veia de peixeira que esteve quase, mas quase, a intervir e a defender o meu direito legítimo e inquestionável ao atendimento prioritário. Como eram grandes as probabilidades de ser apedrejada por uma hoste furiosa se abrisse a boca, lá me deixei estar impávida e serena como se nada fosse. 

No entanto, pela hora de almoço já estava ligeiramente irritada, cheia de fome e de dores e com vontade de mandar toda a gente ir dar uma volta. Quando finalmente fui atendida, duas horas e meia depois de ter chegado (relembro que tinha a senha prioritária n.º 13), a funcionária alertou-me amavelmente para o facto de que não podia tratar do meu caso porque, vai-se a ver, o papel que eu tinha afinal não servia (a sério?), e teria de lá voltar ainda nesse dia, depois de ir à instituição competente pedir a declaração. Tive uma breve visão de mim debruçada sobre a secretária, a segurar-lhe os colarinhos e a gritar, enquanto expelia um número considerável de gafanhotos e veias de baba, "E as minhas contracções, minha grande ****? Posso deixá-las aqui enquanto vou ali abaixo pedir a declaraçãozinha ou vou ter de as levar comigo, hã?" 
Foi alucinação que passou depressa, felizmente. Levantei-me com o rabo entre as pernas, agradeci e ainda lhe perguntei se podia ir almoçar primeiro (a sério???).

Às três da tarde estava, finalmente, esparramada no meu sofá, pronta para deitar qualquer ressentimento para trás das costas e quase satisfeita por já ter tudo tratado na SS para poder receber o dinheiro da baixa para aí daqui a... digamos... uns cinco meses.
Oh, mas o que interessa isso?