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Bolas de Berlim... sem creme

Um blogue que não é de culinária (apesar de ter algumas receitas)

Bolas de Berlim... sem creme

Um blogue que não é de culinária (apesar de ter algumas receitas)

Boas novas sobre o que aí vem (mas sem qualquer cinismo)

Só mesmo esta gaja para dizer as coisas como elas são. No curso pré-parto eles bem avisam que o primeiro mês é difícil, mas que passa, ficando uma pessoa a pensar que é como a seca de ter de assistir a um jogo Camarões-Arábia Saudita, sabe que passa e depois vem aquela série gira. Haha, desenganem-se. O primeiro mês depois de parir é capaz de ser a fase mais difícil por que passei e eu até tive um pós-parto mais ou menos fácil. Isto é, a Inês, a recém-nascida, aquele ser frágil e delicado que no primeiro mês não fazia mais do que chorar, dormir, cagar e mamar e a quem a nossa única missão foi ajudar a sobreviver (ao mesmo tempo que percebíamos como é que sobrevivíamos ao lado dela) foi uma bebé relativamente fácil, que conseguíamos adormecer sem grandes dificuldades, que cedo conciliou os sonos com os nossos e nos deixava dormir à noite, que só teve cólicas durante duas semanas, que mamou bem logo desde o início e que ia engordando a olhos vistos, nunca nos dando motivo de preocupação. A dificuldade foi em lidar com todo o desconforto associado ao pós-parto. Sim, desconforto. É esta a palavra. Andei um mês a sentir-me desconfortável no meu corpo. As mamas que doíam e não cabiam em nenhum soutien do mundo, o útero que sangrou durante 30 dias ininterruptamente como se estivesse sempre no primeiro dia da menstruação, as dores ao sentar, ou mesmo a impossibilidade de o fazer (para quem tenha uma cesariana serão outras dores com certeza), que duraram aí umas duas semanas e aquela dor de cabeça filha da mãe que não me largou desde que saí do hospital até ao segundo mês (dizem que é um efeito secundário da epidural, embora eu duvide que tamanha bênção dos deuses possa ter quaisquer efeitos nefastos!). E depois foi o meu humor que levou uma cacetada com um bastão de basebol e ficou assim meio raquítico, levando-me às lágrimas por tudo e por nada, mas especialmente sempre que abria o roupeiro e percebia que não tinha a porra de uma peça de roupa que me servisse (as roupas de grávida já estavam largas mas, como não sou a Cláudia Vieira, levei algum tempo a caber nas minhas calcinhas 36 sem sufocar).
É preciso ter coragem e paciência e um mantra qualquer do tipo "Isto vai passar" (sim, era o meu mantra super original) e um homem ao nosso lado tão espectacular como o meu que teve uma paciência de santo para os meus desvarios e me abraçou como se eu tivesse acabado de perder um ente querido perante um daqueles episódios do roupeiro (nunca lhe perguntei o que ele pensou realmente durante aquele abraço, é melhor não saber...).
E depois ainda há aquele medo parvo de alimentar a manha do bebé no primeiro mês, porque a tia e a avó e a vizinha e o taxista dizem convictamente que os bebés já nascem a sabê-la toda e que é preciso ter cuidado para não os habituarmos a adormecer ao colo e bla bla bla bla, que é só manha, raios que o parta. Manha, mas qual manha? Mas alguém acredita mesmo que um recém-nascido, que esteve dentro do ventre durante 9 meses, habituado a receber comida e oxigénio da mãe, sem ter de mexer uma palha para fazer o que quer que fosse, de repente salta cá para fora, é obrigado a respirar sozinho, a comer sozinho, a mamar, a engolir, a dormir num berço demasiado grande para ele, sem o aconchego da placenta e sem a voz da transportadora porque essa, a bem ver, está na sala com as mãos nos ouvidos para não o ouvir chorar, porque ele tem de aprender a adormecer sozinho, não importa se ainda só tem uma semana, que eles nascem a sabê-la toda, mesmo que o que lhe apeteça é ir lá pegar nele e embalá-lo nos braços e dar-lhe mais um bocadinho de maminha para ficarem os dois confortados, alguém acredita mesmo que um recém-nascido já nasce com manha? A sério? Eu caí neste erro umas duas ou três vezes. Porque é daquelas coisas que ouvimos em todo o lado, na farmácia, no centro de saúde, na casa dos avós, porque toda a gente tem a porra de uma opinião para dar sobre o que quer que seja, e há alturas piores que outras para ouvir certas barbaridades (temo dizer que, no que toca ao tema filhos, toda a gente continua a ter a porra de uma opinião para dar e continuará sempre até eles fazerem 30 anos e nos largarem as saias...). 
Mas logo percebemos, e posso afirmá-lo com a mesma convicção da tia e da avó e da vizinha e do taxista, se bem que não passa de uma opinião que eu também acho que tenho de dar, que isto da manha é das coisas mais parvas que já ouvi e que quando oiço alguém a dizer isso só me apetece lidar com a coisa à machadada. Sim, com a segunda, tenciono pegar nela ao colo as vezes que forem precisas, as vezes que ela pedir e que eu precisar para sentir o vínculo perdido no parto, adormecê-la ao pé de mim e cantar-lhe até se me esgotar a voz. Porque um recém-nascido não a sabe toda, não. Aliás, um recém-nascido não sabe nada. Agora nós, mães parideiras, já sabemos que isto não é fácil e que o primeiro mês vai ser um desafio (isto é um eufemismo). E quanto mais conscientes estivermos disto, mais bem preparadas estaremos para o enfrentar. Digo-o a título "quem te avisa teu amigo é", mesmo que me chamem agoirenta, a todas as amigas mamãs que vão ter bebé este ano (e no próximo, que já há para aí uma ou duas) e para mim própria, que me borro de medo de que cada vez que penso que vou passar pelo mesmo com a adjuvante de viver na mesma casa de uma catraia que vai reclamar toda a minha atenção quando a mana nascer. Raios... Agora que falo nisso, parece que tudo o que disse acima assim a modos que perdeu importância.