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Bolas de Berlim... sem creme

Um blogue que não é de culinária (apesar de ter algumas receitas)

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O canto das baleias


Tenho uma leitora madeirense que não vai gostar nada de ler o que vou escrever a seguir, mas tenho de dizer que gosto mais dos Açores do que da Madeira. Não sei de onde vem esta mania de comparar os arquipélagos, um não tem de ser melhor do que o outro, mais bonito ou mais glamouroso, pois se são tão diferentes dever-lhes-ia estar reservado o direito da exclusividade. Ninguém se lembra de comparar as Berlengas com a Ilha do Pessegueiro, por exemplo. Mas adiante.

Tenho vindo aos Açores numa espécie de mistura de negócios com lazer e esta é já a terceira vez em dois anos que visito o arquipélago. A primeira vez que cá vim foi uma autêntica revelação. Fiquei tão surpreendida pela beleza que encontrei que quase me senti ofendida por nunca ninguém me ter dito que isto era verdadeiramente bonito. Uma espécie de ilhas exóticas mas com tempo merdoso. O grande mal dos Açores é mesmo o clima, para além dos preços estúpidos dos voos. Não fosse o clima e às vezes até dava a sensação de estarmos na Tailândia. Juro. Foi o que senti quando estava a descer para a Lagoa do Congro, uma piscina verde esmeralda envolta na vegetação mais densa e mais verde que possam imaginar. O canto exótico de pássaros invisíveis aqui e ali e quase que não me surpreenderia se me saltasse um macaco para o caminho. Mas macacos é coisa que não há nos Açores. Já as vacas são outra história. Fotografo vacas como aos camelos em Marrocos, com o mesmo fascínio e curiosidade, mas esta comparação agora foi um bocado parva pois dunas e tuaregs foi coisa que nunca vi por aqui.

Portanto, depois de São Miguel, das Flores, do Corvo e da Terceira, chego agora ao Faial e ao Pico para me espantar de novo como se fosse a primeira vez que visse lagoas verdes, caldeiras ou crateras, fumo a sair da terra e queijadas da Graciosa (e agora, para me armar em pessoa muito viajada, podia comparar os Açores com a Islândia, menos a parte das queijadas, mas fica para depois). Diz que vou ver cetáceos logo à tarde e já sei que, assim que vir o botezinho de borracha que me vai levar para o meio do oceano para avistar bichos marinhos maiores que eu, me vou borrar toda. Tanto que o meu sistema gastrointestinal ainda não se refez completamente dos últimos dias. Mas a verdade, convenhamos, é que sempre fui muito maricas. E a única vez que me lembro de realmente ter sentido muito medo, medo mesmo, aquele medo que nos gela a espinha e nos faz procurar sinais divinos na espuma das ondas, foi quando me sentei num bote de borracha para ver o tubarão-baleia. Mas acho que desta vez não se espera que mergulhe. Ao menos isso.

(Passei o voo todo com a música "Comforting Sounds" dos Mew na cabeça. Não sei porquê, não a oiço há anos, mas agora que penso nas baleias parece-me bastante apropriada.)