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Bolas de Berlim... sem creme

Um blogue que não é de culinária (apesar de ter algumas receitas)

Bolas de Berlim... sem creme

Um blogue que não é de culinária (apesar de ter algumas receitas)

Correr por gosto

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(Foto armada ao pingarelho retirada daqui

Há quase duas semanas, fui à minha primeira conferência de tradução. Foi uma conferência de tradutores para tradutores, portanto não se tratou tanto de arranjar clientes, mas sim de alargar a rede de networking (de onde cada vez vêm mais clientes) e de nos motivarmos uns aos outros a fazer mais e melhor e, principalmente, a darmos o devido valor à nossa profissão.

Faço parte de vários fóruns e grupos de tradutores e em muitos o discurso é o mesmo: o tradutor é um coitadinho que é explorado e vive na sombra. Se é isto o que os próprios tradutores acham de si, imagine-se o que pensarão os outros de nós, que ainda nem sequer existimos como classe profissional! Os tradutores que estão mais expostos ao olho do público são os tradutores literários e os tradutores de audiovisual. Houve palestras dedicadas quer a uns quer a outros, mas foi a palestra sobre o mercado da legendagem que mais polémica levantou e é exactamente sobre isso que gostava de falar agora.

(Sim, vou armar-me um bocadinho em coitadinha, mas prometo que são só dois parágrafos.)

 

A maior parte das pessoas não faz ideia do trabalho que está por trás de um episódio do Castle que vemos enquanto passamos a ferro... Não apenas o trabalho, mas o desprezo a que o legendador é votado pela indústria cinematográfica, que gera milhões... Paga-se uma ninharia por um serviço sem o qual não haveria televisão, nem cinema, nem TED Talks acessíveis a meio mundo. Sem a tradução para audiovisual (TAV, como é conhecida no meio) só quem dominasse muito bem o inglês é que iria ao cinema. Filmes de realizadores ilustres suecos, árabes ou japoneses nem sequer chegariam às salas de cinema por não haver quem os entendesse. Não haveria TV por cabo. O culto da Guerra dos Tronos teria ficado pelos livros. E por aí em diante.

Acreditem ou não, o legendador ganha à hora o mesmo, ou menos, do que uma empregada de limpeza. No outro dia, não acharam bem que comparasse a minha profissão com a de uma emprega de limpeza, acharam desprimor. Eu não vejo assim. Estou apenas a comparar o preço à hora de uma profissão qualificada com o de uma não qualificada, que é igual. Serve perfeitamente de exemplo para perceber que algo não está bem.

 

Mas voltemos ao Castle. É uma série divertida e levezinha que se vê bem sem se dar muito por ela, mas em que as personagens basicamente não se calam durante 40 minutos. Um episódio de, repito, 40 minutos leva, em média, 8 horas a traduzir e legendar (sincronizar a legenda com a fala). Há quem consiga por menos tempo, há quem precise de mais, depende da estaleca que já se tem com o software de legendagem (que, já agora, o legendador tem de comprar pela módica quantia de 1700 euros) e da experiência em traduzir séries do género.

8 horas é um dia inteiro de trabalho. Mas como a legendagem é paga ao minuto de série e não de trabalho, no final do dia, contas feitas, eu ganhei tanto quanto tenho de pagar à empregada por me ter limpo a casa enquanto eu estava a legendar.

 

Isto tem-me feito pensar muito, especialmente desde que vim da conferência. Já estive de mail escrito, vai não vai, para enviar às agências de audiovisual para as quais trabalho a explicar porque é que vou deixar de trabalhar com elas. Mas acabei por apagar o e-mail. Porque, felizmente, eu não faço só legendagens. Felizmente, eu consigo ocupar mais de 80% do meu tempo de trabalho com traduções que me compensam financeiramente e pagam as contas. A legendagem tem sido uma espécie de hobby, uma coisa que gosto de fazer, que me diverte e fascina e me tem ensinado imenso, porque isto de legendar filmes colombianos passados no gueto tem muito que se lhe diga. Mas não me paga as contas e até impede que esteja a ganhar o dobro nos dias em que estou a legendar porque, para legendar, não posso aceitar outros tipos de trabalhos mais bem pagos.

O meu homem dá-me muito na cabeça e acha que eu devia pôr de lado a parvoíce das legendagens. Mas, a verdade, é que não quero. A verdade é que, mesmo ganhando uma miséria, eu quero que 10 a 15% do meu tempo de trabalho seja passado com filmes e séries. Porque quando, em Agosto, me despedi do meu trabalho com contrato sem termo, não me despedi para continuar a fazer a mesma coisa. Despedi-me porque as traduções demasiado técnicas me aborreciam de morte e não acrescentavam valor nenhum à minha vida, para além do financeiro. O dinheiro é importante, é certo, mas nem só de dinheiro vive o homem. O homem, ou a mulher, neste caso, também vive da paixão, do fascínio, da realização pessoal. E quando me despedi de um contrato sem termo foi para fazer menos aquilo de que não gosto e passar a fazer mais aquilo de que gosto. E eu gosto de legendar.

Por isso, vou continuar a aceitar traduções técnicas para poder alimentar as minhas filhas e a aceitar legendagens para poder alimentar a alma. Tenho a sorte de poder conciliar as duas coisas: o que tenho de fazer e o que gosto de fazer. Por isso, sou feliz.