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Bolas de Berlim... sem creme

Um blogue que não é de culinária (apesar de ter algumas receitas)

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Quando as dores chegam

O médico olhou para o meu pé e disse, "E as dores quando chegam? Mais para o fim do dia?"

Pensei durante dois segundos no facto de nunca ter pensado nisso, se é ao fim do dia que tenho mais dores. "Acho que não, doutor, há dias em que as dores chegam logo ao acordar, mal ponho o pé no chão."

Depois de remexer no pé, depois do raio-x, depois de me mostrar o esqueleto de um pé normal e o esqueleto do meu, explicou-me que o calcanhar também precisava de ser mexido, de ser deslocado um pouco mais para a esquerda, "caso contrário, daqui a 10 anos você vai ter dores insuportáveis". Artroses, prenunciou. Falou-me de uma nova operação, agora ou daqui a 10 anos, quando as dores chegarem. Mas se chegam todos os dias de manhã, doutor?

Os médicos especialistas de alguma coisa adoram casos como o meu: tentativas de sucesso da medicina dos anos 80 que hoje em dia se resolveriam numa só intervenção, mas que, dadas as circunstâncias, são resultados do "fez-se o que melhor que se podia e se sabia". Estes médicos especialistas de alguma coisa adoram inventar e remexer e experimentar coisas novas e propor coisas como andar com uma chapa de titânio no calcanhar para o resto da vida. Disse-lhe que ia pensar, por sinal tenho 10 anos para o fazer. Quando as dores chegarem, ele, mesmo que cheguem todos os dias de manhã, eu.

"Por sinal, você aceita bem as suas dores. Há quem não aceite... Ainda bem para si."

 

 É que eu estava de saia.

 

[Não tem sido fácil aceitar-me todos os dias. Há dias em que visto calças, apesar de me apetecer vestir saias, porque não me apetece enfrentar o mundo. Ser forte custa e é preciso estar forte para ser forte. É preciso que tudo o resto esteja a correr bem para conseguir ser forte. Nas últimas semanas nem sempre consegui sentir-me forte o suficiente. Especialmente em dias de ir buscar as miúdas à escola. Gosto mais de ser forte ao fim-de-semana, junto de amigos e família, pessoas que me conhecem e gostam de mim e não me julgam pelo exterior. O que o médico não podia saber é que, apesar de ter ido à consulta de saia, tinha umas calças no carro. Mas como já aqui disse vezes sem conta: é um passo de cada vez.]