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Bolas de Berlim... sem creme

Um blogue que não é de culinária (apesar de ter algumas receitas)

Bolas de Berlim... sem creme

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"Esquenência"

Cresci a ouvir o meu pai usar o termo "esquenência" sempre que eu deixava um bocadinho de comida no prato, daqueles bocadinhos tão poucos que, usando uma expressão popular, mal cabiam na cova de um dente. Desconhecendo que tal palavra não existia, nunca me questionei acerca da sua origem e usava-a esporadicamente para me referir a algo tão diminuto que só havia uma palavra que lhe fazia jus ao tamanho: "esquenência". Só há pouco tempo é que, de facto, me apercebi que a palavra não existia. Nem sei se se trata de algum regionalismo (o mais provável) ou simplesmente de alguma palavra inventada pela necessidade de identificar aquilo que é tão pequeno, mas tão pequeno, que chega a ser ridículo. Na verdade, acho que essa palavra devia constar do dicionário. Ao longo da minha vida sempre encontrei exemplos típicos de esquenências e agora, a entrar (hoje!) no oitavo mês de gravidez (urra!), não encontro melhor termo para designar a minha bexiga, em comparação com tudo o resto. A minha bexiga é uma esquenência e não venha nenhum linguista acusar-me de incorrecção morfológica. Olhem lá bem para o tamanho da bexiga de uma mulher grávida, em cujo corpo tudo aumenta e dilata menos a bexiga, contem as vezes que vamos aflitas para a casa de banho de 20 em 20 minutos como se a bexiga fosse rebentar (e depois só fazemos três pingos), e vejam lá se me arranjam melhor termo! Ah, pois é!


Contorcionismos

Ecografia do terceiro trimestre. Líquido bem. Placenta bem. Bebé-what´s-her-name bem. Tudo no sítio. Rachinha indicadora de que o ser ainda não mudou de sexo bem visível, como o médico fez questão de assinalar várias vezes (oh, e eu que ainda estava com esperanças...). Posição bem. Ou seja, já deu a volta. Ontem à noite, só pode, a primeira noite em que consegui dormir 5 horas seguidas sem acordar com as narinas tapadas pela Muralha da China (não sei porquê, mas esta crise de sinusite dá-me para fazer analogias geográficas...), pelo que não dei absolutamente por nada. Ia jurar que ainda ontem sentira pontapés do lado esquerdo (ao que parece está aí agora o rabinho) e não entendo como é que quando a primogénita deu a volta eu senti exactamente o que estava a acontecer e desta vez foi como se nada se passasse. Será isto um sinal de que, daqui a 15 anos (ou menos, a avaliar pelos tempos que correm) também não vou dar por nada quando ela saltar a janela do quarto para ir para a farra, fizer sabe-se lá o quê, e voltar a entrar pela janela vinte segundos antes de eu abrir a porta do quarto às 7 da manhã, para ver se está tudo bem, e não sentir o cheiro nauseabundo a tabaco e drogas ilícitas embrenhado debaixo dos lençóis? Eu sempre disse que esta miúda me vai dar problemas!

Entretanto, para meu eterno deleite, a obstetra teve a bondade de me avisar que tenho de voltar à Segurança Social. Parece que os computadores da SS não conseguem ler o campo referente a "Gravidez de risco clínico" que os obriga a pagar a 100% (deve ser um vírus, coitados...). Portanto, sem uma declaração do médico a comprovar o meu risco clínico fotocopiada umas dez vezes e anexada à baixa inicial e ao respectivo prolongamento, com uma bolinha à volta de "Risco Clínico" com caneta fluorescente e outra bolinha à volta do meu nome (Não leva cê, percebe?) e ainda um post-it só naquela do lembrete, não me vão pagar tudo a que tenho direito ou, arrisco a dizer, não me vão pagar de todo.
Curiosamente, sobre este papel ninguém me falou, nem aquando da baixa inicial, nem na minha anterior visita à repartição. E depois eu é que ando esquecida.


(isto agora fez-me lembrar qualquer coisa)

desContracções

No princípio foram os enjoos. Enjoos que duravam de manhã à noite, chegando até a acordar-me durante a noite para avisar que só dariam tréguas a partir dos 4 meses. Depois foi o cansaço, as dores nos braços e em praticamente tudo o que eram articulações, o que levou a médica do centro de saúde a ponderar a hipótese de Lúpus e a descartar-se airosamente de uma grávida "complicada", recambiando-me de volta para o hospital. Agora é a baixa antecipada que, por muito que os meus olhos brilhem ao ler estas cinco letrinhas, não é pelos melhores motivos e me deixa mais desmotivada do que feliz por passar os dias literalmente a não fazer nenhum.
Comecei a sentir as contracções de Braxton Hicks já há algum tempo, eu diria mesmo há um mês, mas, como eram esporádicas, fui achando normal. Comecei a estranhar quando deixaram de ser esporádicas, quando eram tantas que já me incomodavam, mesmo que não me doessem. Comentei com o pai, comentei com uma amiga e resolvi ir à procura de mais informações na Internet. Percebi, então, que, às 28 semanas, não é suposto ter mais do que 4 contracções por hora. Comecei a contá-las. Não sendo todas as horas (apenas quando estava sentada), quando apareciam, apareciam às 7 de cada vez, em cada hora. Ups. Ainda ponderei correr para as urgências. Mas isto de ser a segunda gravidez dá-nos uma descontracção abusiva (er... desleixo?). Resolvi esperar pela consulta e foi com alguma surpresa que ouvi a médica dizer, depois de me examinar e verificar que tenho o cólo do útero demasiado molinho para o tempo de gestação, que tinha de ficar em casa.
"Mas eu trabalho em casa", ainda disse eu. Não é do stress, não é de apanhar os transportes públicos que não apanho, não é de andar muito, não é de fazer grandes esforços. É, segundo a médica, simplesmente porque, devido à minha profissão, passo demasiado tempo sentada. Ora essa. Prescrição médica: magnésio três vezes por dia, baixa médica de duas semanas daquelas "olhe que é para prolongar", ordem de repouso não absoluto, mas mais ou menos, vá, tenha bom senso.

 
E é assim que tenho passado os meus dias mais ou menos recostada (quando já se tem um filho "repouso" é uma palavra imperceptível), a contar as contracções e a tentar não alarvar muito à hora das refeições, porque, já se sabe, comida e pouca actividade nunca fizeram uma boa equipa. Não estou muito entusiasmada, confesso, especialmente quando o número de contracções chega a 35 num só dia. Tirando o número de horas que passo a dormir ou a andar no meu passo vagaroso, a média por hora pode ser superior às inofensivas 4 contracções por hora. Mas o truque é, como diz o sábio pai das crianças, não stressar, cumprir as ordens médicas e levar um dia de cada vez. Posto o que nos próximos dias ou semanas me vou ter de entreter com muitas das coisas para as quais nunca tenho muito tempo: dormir, ler, dormir, fazer crochet, ah, e dormir. Um post de vez em quando para não me esquecer de como se conjugam os verbos. E, quando precisar de esticar as pernas, ir lavando já a roupa toda de recém-nascido que já tenho cá em casa (mais não, por favor...), porque, lá está, as coisas não acontecem só aos outros e eu quando calha sou um bocado pessimista.

Entretanto, ponho-me a pensar se Alice não será um nome angelical demais para uma pirralha que já me está a dar tanto que fazer (ou que não fazer). Rita seria muito mais apropriado (faz alusão a determinadas atitudes relacionadas com a tenacidade e com a força de vontade). São poucas as Ritas que conheço que não são obstinadas, teimosas e com  personalidade "de gancho". Mas o pai não pode ler isto...

Oh dear, you've swallowed a planet...



Especialmente depois da última consulta médica e da minha recente aquisição de soutiens aí uns quatro números acima, sinto-me uma avantesma gorda e desajeitada, uma espécie de mutação de vaca leiteira com pata desasada, um fenómeno hormonal andante de cara inchada e pele das costas a fazer lembrar uma erupção vulcânica.
Ou, como me designo carinhosamente, lontra. Menos carinhosamente, porta-aviões.
Pede-se empatia.

Que grande melão

Diz o gráfico do meu boletim de grávida que estou quase 3 kg acima da linha de peso aceitável. A enfermeira achou por bem abrir-me muito os olhos e fazer do caso uma coisa muito séria e avaliar bem em que semana é que eu me desleixei para depois, quando eu pensava que me ia delinear um plano de dieta super rígido (apesar de os meus valores de glicémia, colesterol e triglicéridos estarem para lá de espectaculares), sair-se com um único conselho ultra-valioso, como se daí se pudesse retirar a fórmula para fazer feliz muita grávida gorda.
- É o melão! Você come melão? É a fruta que mais engorda. E não conseguimos comer apenas uma fatia, não é? Não coma melão. O melão engorda!

E eu, que só como melão quando vou comer fora para fugir aos doces e, porque, bom, porque gosto e uma fatia chega-me perfeitamente, lá tenho de ponderar deixar de comer melão e substitui-lo por uma mousse de chocolate!

Entretanto, segura de que a enfermeira sabe tanto de nutrição como eu percebo de aeronáutica, fui pesquisar. Como já desconfiava, o melão não engorda coisa nenhuma. Entre as frutas com mais calorias contam-se as bananas, as uvas, o abacate, a manga e o coco. Mas, por exemplo, as bananas têm muito potássio essencial para grávidas e o abacate está cheio de gordura boa e antioxidantes. Devia ser proibido proibir a ingestão de frutas, seja em que dieta for, muito menos em grávidas. Alertem sim para os elevados teores de açúcar em sumos de fruta, já para nem falar de refrigerantes. Digam-me para não comer gelados ou bolos ou muito pão. Agora fruta? Há pessoas que não sabem mesmo o que dizem.