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Bolas de Berlim... sem creme

Um blogue que não é de culinária (apesar de ter algumas receitas)

Bolas de Berlim... sem creme

Um blogue que não é de culinária (apesar de ter algumas receitas)

É só uma fase

Em circunstância alguma me arrependi alguma vez de ter tido as minhas filhas. Não quando estão doentes e me obrigam a faltar ao trabalho, não ao revolucionarem a minha vida social, não ao contribuírem para o meu cansaço generalizado, não ao me darem mamas de velha, viroses ou até mesmo piolhos. Mas esta noite, enquanto, pela terceira vez, me sentei à beira da cama da Inês, desassossegada pelos gritos, sem saber se devia acordá-la à força do pesadelo ou não, sem perceber se aquele choro iria extrapolar para um terror nocturno a que nos tem vindo a habituar desde Dezembro, já sem dedos das mãos para contar as noites de merda desde que veio de férias com os avós e com a paciência presa por um fio, a invejar a "sorte" do pai dela que pode ficar sempre na cama porque ela só me quer a mim, houve ali um breve momento, uns milissegundos em que me perguntei oh, mas porquê, mas por que é que eu tive filhos? Depois repeti três vezes para mim própria "isto é só uma fase, isto é só uma fase, isto é só uma fase", segurei-lhe a mão e esperei que parasse de gemer para eu voltar, pé ante pé, à minha cama, espreitar a outra a quem os pesadelos ainda tardarão a chegar e readormecer com relativa facilidade.

Estrelinha

Ainda hoje na Oficina de Escrita Habitual fizemos um exercício em que tínhamos de tirar fotografias com os olhos, ou seja,  escrever sobre o que vimos.
Quando, mais tarde, estava a tirar desenfreadamente fotografias à Inês durante a sua actuação na festa de fim de ano da escola, apercebi-me de que não estava realmente a prestar atenção. Além disso, as fotografias não estavam a ficar nada de jeito. Então guardei o telefone e observei. Tirei uma fotografia com os olhos.
De fita no cabelo, brilhantes na cara, saia de tule e fato de estrelinha, estava tão linda que me apeteceu vesti-la assim todos os dias. Ela decerto não se importaria... Só se esqueceu de sorrir, tão concentrada estava no seu papel de estrela.
Logo a ver se lhe digo que as estrelas também podem sorrir. Não é por isso que descem à terra.

Lei da compensação

A minha mais velha parte hoje com os meus pais para uma semana de praia e piscina no sul. Só a volto a ver daqui a 8 dias, na festa de final de ano da escola. Sinto-me como uma espécie de quente e frio: se, por um lado, vou ter uma semana mais relaxada em que vou ter tempo para me dedicar a alguns projectos pessoais, por outro lado as saudades já apertam e ela ainda nem sequer acenou adeus. Não sei como vou sobreviver a uma semana só com uma filha. É que uma pessoa a sério que se habitua.

* Convém dizer que foram os avós que insistiram muito nesta semana de férias. Talvez se a tivéssemos "despachado" por motivos de liberdade pessoal (aqui, os pais extremosos devem tapem os olhos) só começasse a suspirar pelos cantos lá para o fim da semana... O que vale é que, quando há dois filhos, a lei da compensação funciona melhor. Ou acabei de dizer um grande disparate?

Humor de mãe*

Eu já disse várias vezes que a fase dos três anos estava a ser a mais difícil, um poço de desafios, birras, recusa em comer, noites difíceis, you name it.
Felizmente as coisas acalmaram bastante. Não sei se foi o facto de a mais velha ter percebido que a mais nova não lhe roubou o lugar (e que bem que elas se dão), se simplesmente ela percebeu quem é que manda aqui, se é a chegada do calor e dos dias longos que torna tudo mais fácil, a verdade é que as coisas melhoraram bastante. É claro que continua a fazer das suas, mas se não fizesse seria de estranhar... No entanto, acho que posso afirmar que estamos a sair da fase má para entrar numa nova fase.
A fase do... cocó!

Se não, vejamos: não há dia nesta casa em que não se use a palavra cocó nas mais variadas e inesperadas ocasiões. Por exemplo:

- Qual é a tua comida preferida?
- Carninha com massinha e... cocó!

(A brincar aos restaurantes)
- Que gelados tem?
- Tenho gelado de morango, de kiwi e de cocó!

- Estes sapatos já não te servem, pois não?
- Não, e cheiram a cocó!

Tenho a certeza que será uma fase normal. De qualquer maneira, ontem entrei na brincadeira e, quando me falou em cocó a meio de uma conversa que metia comida, propus-lhe, da próxima vez, pôr o seu cocó numa marinada de mostarda, cozinhá-lo e servi-lo ao jantar com batatinhas fritas. Olhou para mim como se eu fosse louca, fez um esgar de nojo e depois disse:

- Mamã, eu estava só a brincar!

Afinal eu não percebo mesmo nada.



* título não roubado ao livro, porque não tem mesmo nada a ver.

Chantagens

Na nossa casa não se obriga ninguém a comer do estilo "não sais da mesa até rapares o prato", mas insiste-se, principalmente de manhã, naquela que é a primeira refeição do dia. Ficamos, os adultos, mais descansados se sairmos todos de casa com o estômago aconchegado.
Num destes dias, a conversa sobre a necessidade de comer tomou outras proporções. Ora vejamos.

- Vá lá, Inês, se não queres a torrada, ao menos tens de comer a banana.
- Não quero...
- Tem de ser. Não podes ir para a escola sem comer. Come lá a banana...

10 segundos depois...

- Mamã, sabes o João da minha sala?
- Sim.
- Ele deixou de gostar de cenoura.
- Deixou de gostar?
- Sim. Ele ontem gostava, mas deixou de gostar.
- E como é que isso aconteceu?
- Na casa dele a mamã dele dizia-lhe que ele tinha de comer cenoura, sabes. E ele agora já não gosta de cenoura.


O que responder a isto? Certamente não aquilo que eu fiz, que foi sair da cozinha para me rir à vontade. Na verdade, não sei porque o fiz. Isto não tem piada. Isto é verdadeiramente trágico. Já estou a vê-la a acusar-me de querer que seja uma infeliz e solitária adolescente por não a deixar ir para a discoteca com 12 anos. É que disto até lá é um passo. Senhor González, alô?

Agora que penso nisso, a culpa foi do queijo

Depois do pesadelo da noite de ontem, cujo total de horas dormidas não deve ter ultrapassado as três, quando hoje acordei às duas e meia da manhã, depois de estar a dormir há 3 horas sem interrupções, senti-me profundamente feliz e afortunada. Dormir 3 horas sem interrupções é, desde há várias noites, uma bênção dos deuses. Como sempre que acordo feliz e recuperada me costuma dar a fome, antes de voltar ao quarto ainda passei pelo frigorífico e roubei uma fatia de queijo que é daquelas coisas que gosto de comer no escuro (whatever).

Tivesse eu sabido o que me esperava no quarto e tinha-me demorado um pouco mais à porta do frigorífico. Entre amamentar a Alice e perceber que o motivo por que ela não conseguia voltar a adormecer era fome (maminhas já viram melhores dias) passaram três horas, (caso não tenham percebido: 3 horas), durante as quais houve tempo ainda para acudir à mais velha, que acabou por se vir enrolar na nossa cama, e adormecer a mais nova ao colo, tal era já o desespero. Quando voltei a adormecer, já perto das seis, ainda levei com uma série de pontapés da mais velha para acordar com o despertador pouco depois e não acreditar muito bem no que me estava a acontecer. Só acreditei quando me olhei ao espelho e percebi que, no lugar da cabeça, tinha uma grande e redonda bola de râguebi. Ou qualquer outra coisa de forma e tamanho semelhantes.

Multitasking (ainda disto de trabalhar em casa)

Durante a tarde de expediente, desenhei fadas e figuras geométricas para ela fazer desenhos, liguei-lhe o portátil e deixei-a escrever hieróglifos no Word e na minha agenda, fui buscar-lhe água e bolachinhas, limpei-lhe o rabo e passei-lhe lãs para a mão para "fazer malha", às tantas tive mesmo de a pôr em frente ao ecrã e ir comentando o Manny Mãozinhas. Em loop. "Mamã, olha!", sempre na mesma cena. Três vezes seguidas.

Enquanto isso traduzi. Terminei um projecto e comecei outro. Troquei ideias no Skype com as colegas e debati-me com a teimosia de um programa de tradução. Concentrei-me o melhor que podia, com a consciência de que não me poderei desculpar com a filha se a a tradução não tiver ficado nada de jeito. 

Mas estar de baixa e de licença desde Agosto, voltar finalmente ao trabalho em Maio e, três dias depois, ter de começar já a faltar por doença parasitária da filha (os piolhos foram só o começo) não estava bem nos planos. Assim de manhã foi para o escritório do pai, onde teve imensa gente com que se distrair, e de tarde ficou no "escritório" da mãe. As dores de barriga só voltaram de noite, mas felizmente já está tudo bem outra vez.