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Bolas de Berlim... sem creme

Um blogue que não é de culinária (apesar de ter algumas receitas)

Bolas de Berlim... sem creme

Um blogue que não é de culinária (apesar de ter algumas receitas)

Subtilmente

Quando cheguei à piscina, vi um rapaz com os pés deformados que se sentava numa espreguiçadeira. Não o vi caminhar e demorei a perceber de que tipo de deformação se tratava. Não era como a minha, não apanhava a perna, mas tinha os ossos dos dois pés demasiado para fora e uma cicatriz em cada pé denunciadora de, pelo menos, uma cirurgia. Esperei que ele se levantasse para perceber se a deformação o impediria de ter uma marcha correcta, se lhe daria dores à noite, se lhe permitira usar um calçado normal, numa curiosidade mórbida por encontrar alguém que passe pelo mesmo que eu. Não que deseje mal a ninguém, mas há sentimentos que não conseguimos evitar.

O rapaz nunca se levantou. Aliás, nunca sequer descruzou as pernas. Era um rapaz novo, bem-parecido, elegante, com um fato de banho que denotava alguma posse de compra e uma mulher bonita ao seu lado. Tinha também uma deformação nos pés e, muito provavelmente por causa dela (talvez não fosse, mas na minha cabeça não há outra explicação para isto), não foi ao banho, não se levantou da espreguiçadeira (e o calor que estava) e não descruzou as pernas uma vez que fosse.

 

Há dois anos, eu era ele. Também ficava escondida no meu canto, com as pernas cruzadas, naquela postura rígida de quem, subtilmente, quer esconder uma das pernas por baixo da outra, constantemente em pânico pelo que os outros possam estar a pensar, e será que já repararam, o melhor é esconder a perna com o pareo de forma tão subtil que ninguém repare, não só na perna, mas também na minha intenção de a esconder. E deixar subtilmente apenas a outra perna à vista, a perna normal, bonita, depilada, a perna com o músculo no sítio.

 

Ontem, tive pena daquele rapaz. Não pena por ter uma deformação nos pés. Não aquela pena nojenta que as pessoas costumam ter dos que não tiveram a "sorte" de nascerem "normais", iguais. Tive pena por ele ainda não saber que pode, com os seus pés deformados, descruzar as pernas, sair da espreguiçadeira, ir dar um mergulho com uma naturalidade reconquistada e ser feliz. Espero que venha a sabê-lo um dia. Um dia nunca será tarde demais.

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