Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Bolas de Berlim... sem creme

Um blogue que não é de culinária (apesar de ter algumas receitas)

Bolas de Berlim... sem creme

Um blogue que não é de culinária (apesar de ter algumas receitas)

Passadiços do Paiva

Em boa hora fomos visitar os Passadiços do Paiva em Arouca, antes dos fogos, em pleno esplendor de 8 km de travessia por paisagens maravilhosas inseridas na montanha, ao longo do rio Paiva. Foi com tristeza que soubemos da destruição de um troço dos Passadiços pelo fogo, mas felizmente parece que os danos não são irrecuperáveis.

 

Deixo-vos algumas fotos desse esplendor, num dia muito quente de Julho. Quando reabrir, se puderem, vão visitar. Se puderem, vão também durante a semana, quando há menos gente. Mas se não puderem ir durante a semana, vão à mesma. Vale bem a pena.

 

[Por lá perto, podem comer o melhor bife da vossa vida no Recanto dos Carvalhos, na Gralheira, concelho de Cinfães, o que na altura me pareceu ficar para lá do sol posto, pela quietude e pela maravilhosa atmosfera criada pelo pôr-do-sol. Fiquei impressionada com o bife, com o tamanho das doses, com o preço e com a confirmação de que atrás do sol posto é um sítio bem bonito.]

IMG_8565.JPG

IMG_8567.JPG

 

IMG_8577.JPG

 

IMG_8606.JPG

IMG_8622.JPG

IMG_8629.JPG

IMG_8647.JPG

IMG_8596.JPG

 

 

Como não fazer um piquenique

 (na verdade, este texto é sobre gafanhotos, mas não queria estragar o título)

IMG_8202.JPG

 

 

O Tiago já lá tinha ido de paddleboard e este fim-de-semana resolvemos ir até lá a pé. Para isso, tivemos de estudar mapas e desenvolver uma estratégia, fazer a marmita e enrolar a manta do piquenique. Bom, talvez não tenha sido assim tão romântico. Foi o GPS que decidiu qual o melhor caminho e a estratégia consistiu em pular a cerca, literalmente, junto ao observatório de aves. A marmita consistiu num frango assado que comprámos no dia, batata frita, tomatinhos, queijo e pão e num bolo de iogurte com mirtilos que eu e a Inês tínhamos feito no dia anterior. Descomplicar é mais ou menos a palavra de ordem. (Também havia uma garrafa de tinto que muito me acalmou, cuja razão se perceberá mais à frente).

 

O posto de observação de aves da Lagoa Pequena (ali como quem vai para o recinto do SBSR no Meco) está fechado aos domingos e na maior parte dos outros dias, vá-se lá saber porquê, mas há um caminho pedestre onde a cerca está rebaixada e deu para passar com as miúdas.

 

Íamos contentes. Bom, eu ia um pouco apreensiva pois num sítio daqueles cheio de mato, por onde é raro pisar pé humano, devia haver gafanhotos aos montes - se restavam dúvidas até aqui sobre a minha fobia, este relato é capaz de elucidar bem os mais desatentos. Não ajudou que um gafanhoto do tamanho de uma unha tivesse aterrado no vidro do carro quando lá chegámos, mas o pior foi quando os comecei a ver, de tamanho considerável (do tamanho de um dedo, portanto, enormes!), a saltitar pelo caminho. Havia também uns moscardos, ou o raio, que saltavam e voavam e me batiam nos braços e comecei a entrar em pânico ao fim de 500 metros. Ou talvez fosse 200 m. Ou 100, vá. Ainda tentei disfarçar, tirar umas fotos do caminho, respirar fundo, tentar com que a Inês, já de si algo medrosa, não se apercebesse, mas não deu. Eu estava de saia e chinelos, caramba! - se não percebem a relevância desta informação é porque são pessoas normais. Parabéns! - Resumindo: obriguei a família a dar meia volta e a improvisar o piquenique por baixo do toldo do posto de turismo do observatório de aves e passei o resto da tarde a sobressaltar-me com qualquer mosca! Sim, sou um bocado triste, eu sei. Como se não bastasse, passei o medo à Inês que, como ela explicou muito racionalmente no rescaldo da coisa, aconteceu da mesma maneira como, há uns tempos, lhe passei a gripe.

Portanto, há muitas formas de ser boa mãe. Uma delas é não passar os nossos medos (nem as nossas gripes) aos nossos filhos e conseguir transmitir-lhes sempre a segurança de que eles precisam para viver felizes. Neste dia, eu não consegui. Bom, há muitos outros dias em que não consigo, mas neste dia posso dizer que falhei redondamente no meu papel de mãe segura e autoconfiante. Ela ficou aflita por me ver aflita, com verdadeiro pânico no olhar como reflexo do meu pânico e tive de fazer o caminho de regresso com ela ao colo (18 kg...) a sussurrar-lhe ao ouvido que não se devia ter medo de gafanhotos e que os insectos eram nossos amigos. Ainda por cima, menti-lhe.

 

Podem rir se quiserem (embora sou capaz de ficar ofendida), mas eu sofro com isto, com o facto de parecer uma autência anormal e começar aos guinchos por causa de umas criaturas de 5 cm. Tenho pesadelos com gafanhotos e deixo de ir a sítios e fazer coisas por causa de gafanhotos. É ridículo se pensarmos que eles não picam, nem mordem, nem matam. Mas então. As fobias são assim mesmo patológicas, irracionais, ridículas. Uma vez, no gozo, ofereceram-me um gafanhoto de plástico que me assustou a sério. Enfiei-o na varanda para não ter de o ver e lá ficou durante 3 semanas. Quando precisei mesmo de arrumar a varanda e tive mesmo de pegar nele (vivia sozinha...), usei um pano da cozinha, mas mesmo assim gritei. Sim, gritei. E depois atirei o pano fora.

Querem mais ridículo do que isto?

 

Se calhar não acreditam, mas quando chegámos a terreno seguro e nos acalmámos, o piquenique acabou por ser um sucesso e prometi à família que voltamos em Outubro para ver a migração dos patos. Contando que, em Outubro deste ano, já esteja frio e os gafanhotos já tenham ido para África, claro.

Agora tento brincar com o assunto, mas depois deste dia, sinto que estou numa posição muito má. Aquela em que percebo que, para a minha filha não ter medos, eu também não os posso ter. Para os perder sou capaz de  ter de os confrontar. E só isso mete-me medo.

 

IMG_8194.JPG

 

IMG_8197.JPG

 

IMG_8198.JPG

 

IMG_8193.JPG

 

IMG_8199.JPG

 

IMG_8250.JPG

 

 

Como não fazer um piquenique (na verdade, este texto é sobre gafanhotos)

IMG_8202.JPG

 

 

O Tiago já lá tinha ido de paddleboard e este fim-de-semana resolvemos ir até lá a pé. Para isso, tivemos de estudar mapas e desenvolver uma estratégia, fazer a marmita e enrolar a manta do piquenique. Bom, talvez não tenha sido assim tão romântico. Foi o GPS que decidiu qual o melhor caminho e a estratégia consistiu em pular a cerca, literalmente, junto ao observatório de aves. A marmita consistiu num frango assado que comprámos no dia, batata frita, tomatinhos, queijo e pão e num bolo de iogurte com mirtilos que eu e a Inês tínhamos feito no dia anterior. Descomplicar é mais ou menos a palavra de ordem. (Também havia uma garrafa de tinto que muito me acalmou, cuja razão se perceberá mais à frente).

 

O posto de observação de aves da Lagoa Pequena (ali como quem vai para o recinto do SBSR no Meco) está fechado aos domingos e na maior parte dos outros dias, vá-se lá saber porquê, mas há um caminho pedestre onde a cerca está rebaixada e deu para passar com as miúdas.

 

Íamos contentes. Bom, eu ia um pouco apreensiva pois num sítio daqueles cheio de mato, por onde é raro pisar pé humano, devia haver gafanhotos aos montes - se restavam dúvidas até aqui sobre a minha fobia, este relato é capaz de elucidar bem os mais desatentos. Não ajudou que um gafanhoto do tamanho de uma unha tivesse aterrado no vidro do carro quando lá chegámos, mas o pior foi quando os comecei a ver, de tamanho considerável (do tamanho de um dedo, portanto, enormes!), a saltitar pelo caminho. Havia também uns moscardos, ou o raio, que saltavam e voavam e me batiam nos braços e comecei a entrar em pânico ao fim de 500 metros. Ou talvez fosse 200 m. Ou 100, vá. Ainda tentei disfarçar, tirar umas fotos do caminho, respirar fundo, tentar com que a Inês, já de si algo medrosa, não se apercebesse, mas não deu. Eu estava de saia e chinelos, caramba! - se não percebem a relevância desta informação é porque são pessoas normais. Parabéns! - Resumindo: obriguei a família a dar meia volta e a improvisar o piquenique por baixo do toldo do posto de turismo do observatório de aves e passei o resto da tarde a sobressaltar-me com qualquer mosca! Sim, sou um bocado triste, eu sei. Como se não bastasse, passei o medo à Inês que, como ela explicou muito racionalmente no rescaldo da coisa, aconteceu da mesma maneira como, há uns tempos, lhe passei a gripe.

Portanto, há muitas formas de ser boa mãe. Uma delas é não passar os nossos medos (nem as nossas gripes) aos nossos filhos e conseguir transmitir-lhes sempre a segurança de que eles precisam para viver felizes. Neste dia, eu não consegui. Bom, há muitos outros dias em que não consigo, mas neste dia posso dizer que falhei redondamente no meu papel de mãe segura e autoconfiante. Ela ficou aflita por me ver aflita, com verdadeiro pânico no olhar como reflexo do meu pânico e tive de fazer o caminho de regresso com ela ao colo (18 kg...) a sussurrar-lhe ao ouvido que não se devia ter medo de gafanhotos e que os insectos eram nossos amigos. Ainda por cima, menti-lhe.

 

Se calhar não acreditam, mas quando chegámos a terreno seguro e nos acalmámos, o piquenique acabou por ser um sucesso e prometi à família que voltamos em Outubro para ver a migração dos patos. Contando que, em Outubro deste ano, já esteja frio e os gafanhotos já tenham ido para África, claro.

Agora tento brincar com o assunto, mas depois deste dia, sinto que estou numa posição muito má. Aquela em que sinto que, para a minha filha não ter medos, eu também não os posso ter. E só isso mete-me medo.

 

IMG_8194.JPG

 

IMG_8197.JPG

 

IMG_8198.JPG

 

IMG_8193.JPG

 

IMG_8199.JPG

 

IMG_8250.JPG

 

 

Regresso

Voltei de Berlim no dia 2 de Julho de 2007, exactamente 4 anos depois de ter chegado. A coincidência das datas foi isso mesmo, uma coincidência, que logo assumi como um sinal do universo que me dizia que era o fechar de um ciclo e o início de outro, e que isso só podia ser bom. E foi. Apesar de os primeiros meses terem sido conturbados: voltar para casa dos pais, começar a ganhar o ordenado português, perceber que os meus amigos, depois da euforia inicial do meu regresso, se esqueciam que eu continuava por cá. Depois arrendei uma casa em condições pouco invejáveis e, dois dias depois do concerto dos Interpol no Coliseu - das coisas que eu me lembro - conheci aquele que é hoje o meu amor, o pai das minhas filhas. Sem dúvida, o fechar de um ciclo, o início de outro, e isso foi bom.

 

Voltei a Berlim apenas uma vez, logo em 2008, quando as saudades ainda não eram muitas. O então ainda apenas namorado, mas já o amor da minha vida, foi comigo e pude mostrar-lhe, com algum orgulho pouco disfarçado, os sítios aonde ia, as ruas por onde passava diariamente, os museus, o rio, o brunch ao domingo no Frida Kahlo. A nostalgia ficou guardadinha dentro de mim e assim permaneceu até há uns meses em que uma visita de Berlim despertou em mim toda a nostalgia acumulada. Não aguentei e planeei o regresso. Tenho de ir sozinha, disse-lhe. Ele percebeu, como percebe sempre, que com ele não poderia falar alemão nem ter o espaço necessário para curtir a minha nostalgia. Basicamente, reviver. Reviver o trajecto diário da linha U6 de fones nos ouvidos e, de preferência, com a mesma música. Na altura, era muito Interpol, Nick Cave, Bloc Party, The Shins, American Music Club, Arcade Fire. Tirando estes últimos, não será a música para a qual ando com mais paciência e temo que poderá fazer-me mal à alma ouvir a Leif Erikson enquanto espero pelo metro na Leopold Platz.

 

Talvez escolha, assim, alguma coisa mais soft, mas sempre igualmente triste, que eu nunca fui uma pessoa demasiado alegre. Uma Sharon van Etten (qualquer uma), por exemplo, será a banda sonora ideal para passear nas margens do Spree, ou a Doused dos Diiv (esta já não é tão triste) quando me sentar nas escadinhas da Alexander Platz a observar. Quando sair à noite, sem dúvida uns Hot Chip (One Life Stand) ou uns Yeah Yeah Yeahs (Head will Roll) - no pun intended. E depois há aquelas músicas que poderiam perfeitamente, pela sonoridade que vivi entre 2003 e 2007, fazer parte da banda sonora de Berlim: 5 Chords dos The Dears ou What Did My Lover Say? (It Always Had To Go This Way) dos Wolf Parade e, claro, mas não só pelo nome, Berlin Sunrise dos Fink. Já me estou a imaginar aos saltos no Magnet Club ao som destas músicas.

 

Mas não, desta vez não vai haver Magnet Club nem Karrera Klub, porque - atenção: caretice! - à noite já só quero mesmo dormir, especialmente quando vou passar 5 noites sem ter de me levantar para pôr ninguém a fazer chichi ou acalmar um pesadelo. Vai haver, sim, muitos passeios que já revi na minha cabeça vezes sem conta, reencontros que são capazes de me deixar com a lágrima no olho, e no fim só espero sobreviver intacta, fazer uns contactos (pensavam que era só boa vida??), falar muito alemão até desembaraçar a língua e comer tantos Pretzels quantos a minha pseudo-intolerância ao glúten mo permitir.

 

Não me aguento.

 

Faltam 3 dias e sinto-me como uma miúda de 6 anos na véspera do primeiro dia de escola. 

STA72565.JPG

STA72569.JPG

STA72619.JPG

STA73280.JPG

How long is now2.jpg

 

Espero tirar fotos melhores desta vez. 

 

Bruxelas - Guia rápido para visitas rápidas

A avaliar pelas fotografias a seguir, parece que fomos a Bruxelas só para comer. Não fomos. Mas a verdade é que as nossas escapadas a dois acabam por ter uma vertente muito gastronómica e preferimos gastar o dinheiro e passar o tempo na restauração local e a vaguear pelas ruas do que propriamente em museus. Humm... O que é que isto diz de nós?

Adiante.
Bruxelas é uma cidade pequena e em dois dias está vista. Mas tem um vibe fascinante que me apanhou de surpresa. Adorei o ambiente, sempre muita gente na rua e aquela arquitectura típica da Europa Central. Às vezes esquecia-me e pensava que estava em Amesterdão (mas não digam isso a nenhum belga!). Outras vezes esquecia-me e pensava que estava em Berlim. Basicamente, acho que me senti em casa!

A não perder:
- as gofres, o chocolate, a cerveja, as gofres, o chocolate, a cerveja, assim em duplicado, não necessariamente por esta ordem.
- uma voltinha na rede de bicicleta Villo! (toda a info aqui)
- as Moules (prato típico)
- passear pelas ruas do centro, entrar nas lojas, sentar num pub típico, sentir o espírito da cidade, vaguear ao sabor da multidão (e do cheiro a gofres).


A desilusão do Atomium. É bonito chegar até lá, especialmente se o fizerem de bicicleta, mas chegando lá, tirem meia dúzia de fotografias e vão à vossa vida que o tempo que se perde nas filas não compensa a visita.

Uma pausa para um balde de café que nos aquecesse as mãos.

Diz que na cervejaria Delirium há 2000 cervejas prontas para consumo. Ficaram a faltar-nos 1998...

Uma breve paragem para fotografias junto ao canal. A bicicleta faz parte da rede de bicicletas Villo! disponibilizada pelo município ao preço da chuva. Uns 1,60 euros por 24 horas... É capaz de ser o único serviço barato na cidade...

A Grand Place e os seus cinco mil turistas.

Sim, é um leão de chocolate. Numa das duzentas chocolaterias que visitámos.

Comida vietnamita em Bruxelas? E porque não? Mas a ser, vão ao Hong Hoa que é simplesmente divinal, a um preço acessível e com wi-fi gratuita.

Até voltámos segunda vez.


As famosas Moules, ou mexilhões, com todo o tipo de molhos possíveis e imaginários. Bons, mas bons. No Chez Leon.


Pronto, e nas pausas claro que há isto. Enjoativas, como se querem.


As baleias são nossas amigas

A nossa visita à Ilha do Pico foi curta, mas ficou marcada por dois acontecimentos que dificilmente esquecerei. O primeiro meteu baleias, o segundo levou-me às nuvens.

Já se sabe que sou maricas, sofro de vários medos e fobias entre eles um que conta aqui para o caso que é o medo de tudo o que é peixe maior que a sardinha.  A primeira vez que me convenceram a saltar para uma água profícua em vida marinha foi na Tailândia, numa daquelas excursões de grupo para fazer snorkelling em que os guias acham que o turista gosta mesmo é de ver peixes e então toca de atirar pão para o pé do turista para chamar os peixinhos. A coisa acabou por não ser muito traumática porque uma coisa que aprendi é que os peixes nunca nos tocam. A não ser que seja uma tubarão fêmea desnorteada com as crias. Mas felizmente não era.

Felizmente também consegui superar o medo ao ponto de, no dia seguinte, já andar completamente sozinha a espreitar a vida aquática dos nemos tailandeses enquanto o homem fazia mergulho a sério.

Depois veio aquele episódio do tubarão-baleia e agora esperava-se que me sentasse num semi-rígido rumo a alto mar para ver cachalotes e baleias azuis, só as maiores baleias do mundo. Mas as baleias não são peixes, dizem vocês. Pois não, mas não foi isso que me tirou os nervos. 
Antes da partida, nem consegui almoçar bem e fui a única pessoa do grupo a indagar sobre questões de segurança. Mas deixem-me que vos diga, o primeiro vislumbre do monstro marinho, aka baleia azul, tirou-me toda a rigidez do corpo e toda eu era ahhhhs e ohhhhs e depois chegaram os golfinhos e era um grande cutxi-cutxi que eu lhes fazia se me deixassem. Fantástico! Maravilhoso! Espectacular! Não tenho palavras para descrever aquelas três horas de safari dos oceanos em que perseguimos e procurámos e estivemos a apenas 50 metros (a lei não permite mais) dos maiores animais do mundo. Aprendemos imensa coisa sobre as baleias (vimos três espécies), sobre os golfinhos (vimos duas espécies) e até sobre tartarugas que decidiram presentearem-nos com a sua presença. Por exemplo, sabiam que uma das razões para as baleias mostrarem a cauda é quando dão balanço para ir ao fundo do mar? Eu não sabia, mas vi e tirei foto.


No dia seguinte, subimos ao Pico. Em rigor da verdade, subimos só até um pouco acima das nuvens, o que equivaleu apenas ao segundo poste de orientação. Até lá acima há mais 45 postes, mas (felizmente para mim que subo tudo, descer é que é mais difícil) tínhamos um barco para apanhar e tivemos de ficar por ali. Estar acima das nuvens dá aquela sensação poderosa de conquista do mundo e é uma sensação um pouco difícil de superar.


O homem tentou convencer-me a lá voltar e subir mesmo até lá acima, dormir na cratera e assistir ao nascer do sol. Ele já fez isso e garante que é uma one lifetime experience, mas há coisas a que eu demoro a dizer que sim...

De qualquer maneira, se quiserem lá ir acima, façam uns quantos agachamentos nas semanas anteriores. Os vossos quadrícepes vão agradecer...

Informações práticas: há voos directos para a Horta (Faial) e depois podem apanhar o barco para a Madalena (Pico) várias vezes por dia. A vida no Pico é parada, paradinha e além de actividades como whale watching ou trekking, há pouca coisa para fazer. A animação está mesmo toda (cof cof) no lado do Faial. Para comer recomendo umas lapas grelhadas no Ancoradouro bem regadas a vinho da região. Tem vista para o Faial que, não sendo tão espectacular como a vista do Faial para o Pico, também tem o seu encanto.

Os outros dois dias passámo-os no Faial sempre de olho no Pico. Um deslumbre, só vos digo.

O canto das baleias


Tenho uma leitora madeirense que não vai gostar nada de ler o que vou escrever a seguir, mas tenho de dizer que gosto mais dos Açores do que da Madeira. Não sei de onde vem esta mania de comparar os arquipélagos, um não tem de ser melhor do que o outro, mais bonito ou mais glamouroso, pois se são tão diferentes dever-lhes-ia estar reservado o direito da exclusividade. Ninguém se lembra de comparar as Berlengas com a Ilha do Pessegueiro, por exemplo. Mas adiante.

Tenho vindo aos Açores numa espécie de mistura de negócios com lazer e esta é já a terceira vez em dois anos que visito o arquipélago. A primeira vez que cá vim foi uma autêntica revelação. Fiquei tão surpreendida pela beleza que encontrei que quase me senti ofendida por nunca ninguém me ter dito que isto era verdadeiramente bonito. Uma espécie de ilhas exóticas mas com tempo merdoso. O grande mal dos Açores é mesmo o clima, para além dos preços estúpidos dos voos. Não fosse o clima e às vezes até dava a sensação de estarmos na Tailândia. Juro. Foi o que senti quando estava a descer para a Lagoa do Congro, uma piscina verde esmeralda envolta na vegetação mais densa e mais verde que possam imaginar. O canto exótico de pássaros invisíveis aqui e ali e quase que não me surpreenderia se me saltasse um macaco para o caminho. Mas macacos é coisa que não há nos Açores. Já as vacas são outra história. Fotografo vacas como aos camelos em Marrocos, com o mesmo fascínio e curiosidade, mas esta comparação agora foi um bocado parva pois dunas e tuaregs foi coisa que nunca vi por aqui.

Portanto, depois de São Miguel, das Flores, do Corvo e da Terceira, chego agora ao Faial e ao Pico para me espantar de novo como se fosse a primeira vez que visse lagoas verdes, caldeiras ou crateras, fumo a sair da terra e queijadas da Graciosa (e agora, para me armar em pessoa muito viajada, podia comparar os Açores com a Islândia, menos a parte das queijadas, mas fica para depois). Diz que vou ver cetáceos logo à tarde e já sei que, assim que vir o botezinho de borracha que me vai levar para o meio do oceano para avistar bichos marinhos maiores que eu, me vou borrar toda. Tanto que o meu sistema gastrointestinal ainda não se refez completamente dos últimos dias. Mas a verdade, convenhamos, é que sempre fui muito maricas. E a única vez que me lembro de realmente ter sentido muito medo, medo mesmo, aquele medo que nos gela a espinha e nos faz procurar sinais divinos na espuma das ondas, foi quando me sentei num bote de borracha para ver o tubarão-baleia. Mas acho que desta vez não se espera que mergulhe. Ao menos isso.

(Passei o voo todo com a música "Comforting Sounds" dos Mew na cabeça. Não sei porquê, não a oiço há anos, mas agora que penso nas baleias parece-me bastante apropriada.)